texto de Manoel de Barros

Sábado, Fevereiro 28, 2004


Novidades na Rede:

Jornal da Beta

Coluna de Sábado: A Geração XXI

Num mundo em que se nasce para o cumprimento de normas de conduta, morais e sociais, até o amor ensaia suas pequenas obrigações. As leis do afeto, da Igreja, do Estado, do bom senso, da convivência; todas elas arregimentam o tempo e as vocações.
Mestres, discípulos, os seres submissos, os eruditos; todas as camadas sociais se rendem à sucessão das Eras, e assim vão virando história, memória, arquétipo de gente.


Para ler o resto, clique: jornal da beta

Para conhecer o fotolog, no mesmo endereço, clique aqui: fotolog


 se sobreviver, arrisque-se aqui:




Sexta-feira, Fevereiro 20, 2004




O botão desaparece na flor que desabrocha,
como se ela o negasse, da mesma forma,
o fruto coloca-se em lugar dela como se
a existência da flor fosse falsa. Essas formas
não apenas diferem, mas rejeitam-se
como incompatíveis. Porém não só não
se contradizem, como uma é tão necessária
quanto a outra, e significa a vida do todo
Hegel


A casa de palavras foi reformada.... Que acharam?


Faltou dizer: as frases sem crédito são de Clarissa P. Estés e Caio Fernando Abreu, respectivamente.


 se sobreviver, arrisque-se aqui:




Sábado, Fevereiro 14, 2004


Hiatus

Sinto-me exausta, por isso farei uma pausa. Volto em Março, no primeiro dia do mês. Bom Carnaval à todos!

 se sobreviver, arrisque-se aqui:




Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004


Eva
na mira de um pintor



Da costela de Adão, ergueu-se Eva, soberana, do princípio dos tempos. Não se sabia em que daria a nova forma criada por Deus. Estradas num corpo fêmeo sinalizavam serpentes de um pecado a que se chamou original, mais que obsoleto em paragens abismais. Maçã reboliçada de licenciosidades, e uns seios à curva da perdição: eis Eva! Expulsa do paraíso, ela recobriu as vergonhas, e a humanidade do gozo se perpetuou.

Alguns milênios depois, ela se despe para pintores, inspira poetas, e o paraíso perdido é o filho pródigo que retorna.




apenas porque achei que a imagem era bela,
e quis criar um 'Era uma Vez' pra ela/eva.


 se sobreviver, arrisque-se aqui:




Sábado, Fevereiro 07, 2004

Não foi assim que aconteceu, e os nomes foram preservados. Contudo, não posso deixar de dizer que a história que se segue foi inspirada partindo-se da observação quase curiosa que todo morador nutre por seus vizinhos. Vizinho observa e ouve vizinho e isso é fato. São vidas que se interligam a vidas e estimulam a nossa imaginação. É o que apresento pra vocês. A história é um bocado grande, por isso, puxem a cadeira e se acomodem.


Desculpe o auê



A DJ Produções Marcas Licenciadas preparou a coleção Série Ouro só com sucessos das décadas de 80, 90, clássicos das discotecas, o melhor da MPB, Marvin Gaye, George Beenson; o melhor da música de todos os tempos na sua casa! São 12 cds por apenas R$120,00. Não perca essa coleção! Ligue: 31830377. Deixe que a DJ realize seus sonhos.

Atlântida FM, a rádio que toca saudade:

Desculpe o auê
Eu no queria magoar você
Foi ciúme , sim
Fiz greve de fome,
guerrilhas motins
perdi a cabeça
Esqueça


Rita Lee abrira o dia na cozinha de Maria, a empregada. Quase como um agouro do dia que estava pra vir. Ainda era muito cedo para que se percebesse algo que não o cozido que prepararia, as unhas pintadas, entre uma atividade doméstica e outra - sentada, quase sempre sobre a máquina de lavar.

E por falar em lavar, oh não! Faltava era lavar o banheiro que estava imundo, das águas de um banho porco que dera em Laurinda, entre um vômito e outro, uivos de uma dor constante que fremia pela vizinhança 24 horas por dia, qual uma sirene, um tic-tac de relógio doido, uma bomba relógio... prestes a explodir.

- Aaaaaaaaaiiiiiiiii!!!

Rita já se desculpara pelo auê, e Lulu Santos, por sua vez, como uma onda no mar, profetizara que nada, simplesmente nada do que foi, será do jeito que já foi um dia, ambos, sintonizados que estavam, sem o saber, na Atlântida FM, e no coração cansado de Maria das Dores Neves da Silva.

Maria, ignorante de si, não tinha olhos de ver o que sucedia para além dos limites do apartamento 202: seu lar, seu ganha pão, céu, inferno, sua pátria de chinelos.

Mais que doméstica, era ela as mãos de Laurinda, ainda funcionando, o afago, o fogo da energia, o segundo cérebro, a pontualidade britânica dos remédios, a bronca por dar; espécie de bastarda vinda do interior, acolhida por um irmão indiferente, que lhe ordenara tarefas muito específicas: passar, cozinhar, cuidar da velha casa e da vida velha da velha, que já nem vida tinha.

Só não sabia, Maria, do peso que lhe pesaria nas costas, assim que lhe fosse entregue nos braços aquele bebê desproporcionalmente feio, grande e enrugado. Desproporcionalmente carente. Aquele bebê de fraldas enormes que atendia por Laurinda ou pelo nome que lhe dessem, e ela achasse justo.

Laurinda, de uns olhos puros e desmoronados, uns olhos pedindo, a boca pedindo, minuto a minuto:

-Pão, pão, pão! - talvez para aliviar-lhe a monstruosa fome de vida que ainda sentia.

-Eu já te dei pão Dona Laurina - era assim que Maria a chamava, sem se dar conta de que jamais aprendera corretamente o nome da patroa enferma.

- Maria, Maria...

-Tô almoçando, Dona Laurina! - gritava da cozinha para sua interlocutora no quarto. Já te entupi de pão. Já tomou banho, já comeu, já tomou remédio. Posso comer? Posso? Não me dá um minuto de sossego. Eu hein!

Que tanto queria Dona Laurinda?

- Maria, Maria, apaga a luz, Maria.

E Maria entrava em transe.

Atlântida FM: agora viaje no tempo! Prepare-se para grandes emoções. Você se lembra dessa música?

E tocava Marvin Gaye, Simply Red...

E dessa saudade?

Love of my life - you've hurt me,
You've broken my heart, and now you leave me,
Love of my life can't you see,
Bring it back, bring it back,
Don't take it away from me, because you don't know-,
what it means to me.


Eram momentos inesquecíveis os do arroz com feijão, os do inhame, ou do cozido. No almoço, isolada dos apelos de Laurinda, momento em que geralmente dormia, ou se habituara à indiferença transitória de Maria, que não durava mais de meia hora; momento em que, talvez, na sua insana sanidade, Laurinda, em respeito à colega de dor, deixava Maria sonhar.

O coração batia mais forte. Maria, que nunca deixara de ser Maria Das Dores Neves Da Silva, na hora do almoço, virava estrela de TV, cantora do rádio, mulher amada, mulher de encantos, mulher madame. Se o tempo ajudava, arriscava até uns passos de dança, no piso molhado que ela mesma lavara, detergente à mão, servindo de microfone, Josué, servindo de namorado.

Josué era o porteiro do prédio com quem trocava senão meias palavras, tímida que era, conspurcada da vergonha do sexo, que ela não conhecia, mas imaginava ser bom. E ria de si mesma, protegendo o rosto com as mãos cheias de dedos, quando Josué lhe abria a porta do elevador de serviço, 'como se eu fosse uma rainha', repetia ela, deslumbrada.

Muitos os sonhos que não nos damos conta de possuir, se não sonhamos. A vida passava depressa demais na cozinha de Maria, endurecia suas pernas e braços, mas nunca o coração.

Não se voltara contra o próprio destino, porque não lhe fora permitida qualquer escolha. Saíra muito cedo de casa, a família dando graças a Deus, não por falta de amor, o que faltava era comida pra todos.

Talvez por isso, se entendessem e desconhecessem tanto, Laurinda e ela. Esta, como aquela, também não teve escolha. Ficar entrevada por anos a fio numa cama dura, num quarto abafado nos confins da Tijuca.

E isso era vida? Era o que a vida?

A quem nunca foi dada a tarefa de pensar na vida, viver não significa propriamente uma preocupação, um problema metafísico, tampouco algo sobre o qual se precise voltar as atenções. A vida de Laurinda, como a de Maria não lhes era opção nem mesmo privilégio, era coisa que se fazia: ter filhos, passar, lavar, fazer comida...

As mulheres do tempo de Laurinda, eram quase todas como Maria, com a diferença de hoje serem remuneradas. Mal remuneradas. O rádio, contudo, nunca faltou a um momento sequer. Como ontem, havia o locutor de voz impostada, distraindo e fazendo sonhar, amenizando os dias mais difíceis. O rádio sempre habitou corações e cozinhas das mulheres do lar, viu crescerem os filhos, saírem de casa. Verdade é que foram trocados por modelos mais novos, e os conteúdos ficaram mais hodiernos, porém, estiveram sempre lá.

- Maria, Maria, tô com sede - e Maria corre com a água.

- Ô Maria, quero um pão. Maria, Maria...

Por mais que fosse dedicada e boa com Laurinda, momentos havia em que a paciência daquela mulher simples explodia em reclamação, e em pena, de si mesma e de Laurinda.

As tardes de Março na Tijuca tendem a ser quentes, sobretudo às quinze horas, quando o calor do desespero, berra raios de sol mais fortes que os berros de Laurinda, espichados de premência, loucura, desassossego, vítima e algoz.

Mas fôra preciso muito mais que berros para que Maria, a mulher das canções do rádio, se desesperasse. Foi preciso atingir seu frágil coração.

Às quinze e quinze, pontualmente, conforme anunciara o porteiro Josué, muito prestimoso por sinal, subiu com as sacolas da farmácia, em que continha as drogas necessárias para pôr Laurinda nos eixos, aliviar sua dor, e salvá-la, pouco a pouco, da vida sem vida que já não era sua.

Neste dia Laurinda estivera muito mais agitada do que em qualquer outro. Pedia, resmungava, repetia a mesma ladainha segundo a segundo, quase tão habilmente quanto um papagaio. Seu espírito era o de um amotinado, um revolucionário, um preso de guerra, lutando pela liberdade. Talvez pelo ciúme que sentisse de Maria e Josué, Maria e seu rádio, seu escudo contra os berros e a loucura iminente. Continuava com a pirraça:

- Maria, eu quero pão!
- Maria, apaga a luz!
- Maria, tô com sede.
- Tá doendo, Maria!

Josué chegara. Maria era a noiva que nunca pudera ser, com aquelas sacolas nas mãos, que segurava como um buquê. Confusa, desconjuntada, boca borrada de batom e cheirando a detergente de cozinha, ela lhe sorria com vergonha e esperança.

Ele mal interpretava dela os apelos de amor. Sem que soubesse como fugir dali, ia ficando, igualmente confuso e intrigado com a idéia de ter seus olhos pregados nos dela.

- Nos conhecemos há tanto tempo, né não Josué?
- Oxe! E bote tempo nisso. Já se vai anos.
- E nesse tempo todo eu nunca fui de ter muita prosa com cê, né verdade?
- E num é?
- Mas nem é porque eu te queria mal não, pelo contrário, acho é que...

- Maria!!! Vem cá, Maria! Tô com fome!

- Já voooooooou Dona Laurina. Mas que inferno! - e sua queixa era um jato de sangue e fogo apontado pra dentro de casa. E a sinhora já acabou de cumê..

- Dona Laurina tá impossível hoje - explicava-se para Josué.

Assustado, enfim Josué conseguiu se desvencilhar dos olhos de Maria, fazendo com que a conversa logo chegasse no fim:

- Deixa eu ir que tenho é muito serviço lá embaixo. E Dona Laurinda hoje tá que tá - risadinha sem graça.

- E num é? - concordava Maria, decepcionada com a partida de Josué.

Carlos, do Engenho de Dentro, oferece a música Desculpe o Auê, de Rita Lee, para sua esposa, Flávia Adriane, rainha do seu coração. A Atlântica FM toca de novo essa música pra vocês:

Desculpe o auê
Eu não queria magoar você
Foi ciúme , sim
Fiz greve de fome,
guerrilhas motins
perdi a cabeça
Esqueça


Foi naquele momento, antes que a música terminasse, que Maria percebeu, desconsolada, o que significava não ter vida, sonhos, razão de viver. Soubera, por um átimo, por um clarão de desespero que, enquanto vivesse daquele jeito, presa à Laurinda, à vida de doméstica e mulher virtuosa, não seria de homem nenhum.

Enquanto não se visse livre do grilhão diário de berros e apelos, do amor desesperado que possuía pela patroa, a mãe a quem foi dada a certeza da morte, só não se sabia quando, enquanto ela não abandonasse tudo isso, jamais seria livre em sua vida.

Decidiu por si mesma - pela primeira vez na vida decidiu algo por si, que dissesse respeito a ela, pois sempre viveu para os outros - que assim que se visse livre de Dona Laurinda, ela e Josué fugiriam e ele lhe dedicaria, no rádio, uma canção de amor.

Era Rita Lee quem ainda cantava:

Da próxima vez eu mando
que se dane meu jeito inseguro
nosso amor vale tanto
por você vou roubar os anéis de Saturno


Aproximando-se de Laurinda que, suplicante, pedia-lhe a droga diária que lhe amenizasse a dor nos ossos, Maria a olhou com olhos de mãe, aos quais Laurinda retribuiu, com gratidão, logo que a viu entrar.

- Ô Maria, como demorou! - e sorriu, como se visse um anjo.

- Eu nunca mais hei de demorar, Dona Laurina. Toma esses remédios aqui que a senhora dorme, e a dor passa num instante.

Trêmula, sem fúria nem mágoa, crente do que bem que fazia, ministrou a cartela inteira do remédio, que se bem advertiu o médico, não poderia passar de meio comprimido diário, visto que o coração de Laurinda não suportaria dose maior.

Vendo Laurinda assim tão sorridente, animada com as bolinhas coloridas que botava pra dentro do corpo, Maria foi capaz de chorar de saudades dos tempos em que sua patroa, ainda lúcida, a chamava de 'minha filha'.

- Obrigada, minha filha! - foi como respondeu.

Laurinda adormeceu.

Ardia o sol das cinco no Rio de Janeiro, breve como todo entardecer. Infinito, belo, poderoso. O sol se punha por detrás das montanhas além do horizonte, daí a pouco anoiteceria, sem que Maria soubesse o que fazer amanhã com o tamanho de sua liberdade.

- Agora sou livre? - perguntava Maria a si mesma, rindo-se em êxtase triste e transtornado.

Olhando pela janela da sala, que só contemplava quando limpava as vidraças, Maria reparou que a vista era bem mais bonita que pensava. Inebriada com as cores da cidade que era sua, mas que propriamente jamais conhecera, pôs-se a avistar certas flores num gramado próximo, que nem sequer imaginava ali existirem.

Havia uma vida toda que Maria não vivera. Laurinda, no quarto, não reclamava, não sorria, não berrava mais.

O sorriso de sombras se misturou ao fim do dia. E no rádio, alguém dedicou outra canção de amor.


 se sobreviver, arrisque-se aqui:




Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004


Para quem me ama


Eu estava pronta pra te fazer feliz. Calar ímpetos da pele nua, cheia de olhos, células, conjunções de mim e tu. Eu estava pronta para abrir mão de todos os meus estrangeirismos amorosos, em nome do nosso caso, da casa que seria da gente.

E mesmo não sendo para sempre, o fogo alto ardendo rupturas eu apagaria para te fazer feliz. Em te fazendo feliz, eu não era feliz. Mas cumpria a tarefa certa que me fora destinada: te amar.

Afinal, quantas vezes fui salva pela orla das marés de convicções tuas, e não minhas? Eu me deixei incrustar na madeira da tua cama, ouvindo tuas idéias de cabeceira, e foram elas que me fizeram a cabeça, que me salvaram do transtorno de não entender a única coisa que eu tinha: eu mesma.

Jamais sairia das terras que são tuas a menos que me soterrassem cabeça, pés e paixão. Esforço ingênuo! Soerguer a minha santa ou minha puta dá no mesmo, meu bem. É mesmo o pecado de tirar de mim o chão com o qual piso com as mãos a certeza do tato.

Amparar-me o calabouço-coração é tão perigoso quanto aparar minhas unhas. Uma hora rasga-te de mim a lâmina córnea semitransparente, rasgam-se as cúticulas, apara-se demais os cascos das minhas certezas; e eu sangro.



 se sobreviver, arrisque-se aqui:







PRELÚDIOS-INTENSOS PARA OS DESMEMORIADOS DO AMOR.

I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.


Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.


Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.


II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.


Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.


Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.

(...)


[Júbilo memória noviciado da paixão (1974)]
[in Poesia: 1959-1979/ Hilda hilst. - São Paulo: Quíron; (Brasília): INL, 1980.]


 se sobreviver, arrisque-se aqui:





Terça-feira, Fevereiro 03, 2004


Mais e mesmo



Das muitas vezes que ouvi cantar o pássaro não lhe dei a devida atenção. Como transeuntes em cujos olhos dialoguei a vergonha de nunca mais voltar a vê-los. Despedi sem sussurro ou lágrima o abandono das coisas passantes.

Pois todos devem conhecer a história do porteiro que, sendo porteiro há mais de quarenta anos, só conseguiu ser percebido, quiçá amado, no dia do enterro, sem que nenhum morador do prédio em que trabalhava lhe houvesse conseguido arrancar a fisionomia em meio século de profissão: bom dia, doutor, boa noite, quer que eu lhe ajude com as malas?

Gumercindo morreu, não sabia? Agora é João Ninguém que trabalha aqui. O porteiro do meu prédio eu olho bem nos olhos, para que nunca aconteça com ele o que acontece com qualquer um na Rio Branco.

A folia do Carnaval é outro capítulo à parte. A vida, preste bem atenção nisso rapaz, é como se fosse uma quarta-feira de cinzas permanente, depois de alguns dias de deleite.

A vida é carne, carnal, carnaval, carnavália, carne na veia. Navalha na carne. A vida é quando se tira a fantasia, meu filho, solitária, coletivesca também, nunca se esqueça disso!

Coletivesca eu inventei pra ser palavra minha. Sabe quando a gente quer uma coisa que seja para sempre só nossa? Eu quero minhas personagens de infância: Ergunda, Titia Epilial, que era uma neurótica com a coluna e com a moral, mandava todo mundo ficar 'reto para vida', quero inventar com toda a força dos meus verdes anos. E quando eu xingava alguém? 'seu borigodofo!!!', com que eloqüência o borigodofo era cuspido pela boca.

Vá olhar no espelho de qualquer verbete de dicionário, e não encontrará brilho igual que em palavra recém-criada. As crianças são mestras nisso: 'Não cabeu no armário, mamãe'. E a 'epistela' do Joaquim? Deve doer muito aquilo, guri.

Matei a charada! Basta que eu confira identidade única ao que quero só para mim. Coletivesco é fuga do comum e não à toa rima com carnavalesco. É que falávamos sobre o Carnaval, lembra-se?

No final é sempre a festa da carne. Aqui, em Veneza, na face pintada do Pierrot. No final a sorte é sempre inventar para que seja único. Coletivesco é, nesse sentido, neologismo do coração.

O canto de um pássaro nunca é igual ao outro. Mas quem é que sabe se um pássaro canta igual a outro? Quem é que presta atenção?

Deus?

Deus leva embora com o vento os melindres de um pássaro, a tosse, a maldição de querer ser gente e se abrigar da neve, de querer ser pássaro e voar da vida.

A gente está é muito acostumado a ouvir sempre a mesma coisa. A mesma ladainha, o mesmo resmungo de manhã, a voz desperta do locutor na rádio CBN (e eu nunca entendo como ele pode estar tão acordado enquanto o mundo boceja).

Deve ser por isso, que nos cobram, os homens, fidelidade nos romances. Por que tem que ser igual e para sempre?

Feliz para sempre, tão bonito quanto? Porque os homens estão muito acostumados ao mesmo e nunca será fácil trair palavras e comandos de ordem.

Mas os meus olhos me traem, sabia? Por um quarto milionésimo de segundo eles me traem sim. Já não sou eu vendo o que vi.

É que percebo. Percebo o timbre mais rouco do pássaro quando está triste e canta sem vontade porque brigou com sua namorada pássara que também lhe exigiu fidelidade de pássaro.

E como é que será fidelidade de pássaro?

'Cante pra sempre a mesma música, meu pássaro! Voe bonito pra sempre me agradar!'.

E pássaro canta?

Pássaro triste é pombo. Arrulha coração.

É como gente que inventa poemas por inventar. E pra nada serve senão pra nutrir a inspiração, que é uma fome só um pouco diferente que a fome de comida. É como gente que pinga sangue na tela em várias cores: roxo, amarelo, azul..., e na hora enlouquecida de instantes ventando cortinas, sente febre de amor.

Nunca mais ser o mesmo. E ser mais com/por isso. É preciso boa dose de coragem para fazer o que eu não fiz.

Mas meu coração fez! Entregou-se, vadio, ao sorriso do menino que eu vi. Cobiçou a mulher do próximo e saiu de fininho quando o próximo chegou.

Sabe o que faço?

Pego suas mãos por um instante, um instante só. Deixa? Para que eu nunca mais esqueça como é morna a sua timidez, pra que eu nunca mais me esqueça como é bom te querer pela vida afora, como amante, ou como irmã.

A natureza dos meus instintos fez depressa o seu serviço. É tão débil quanto franca e por isso fracassa. É que para ser feliz, é preciso um pouco mais que coragem. Não é preciso nada.

Vê-se pelo desperdício dessas linhas, o quanto eu me traí, o quanto fui desnecessária, débil e franca, o quanto eu fui! Vê-se pela mácula no papel entre a palavra bosta e a palavra pérola roubada do mar.

Eu fico com a concha e jogo a pérola fora. Pérola todo rico tem, além do mais, se falsifica. Pérolas jogo aos porcos.

Fico com a concha, ouço o marulho dos tempos de menina encostando meus ouvidos nos ouvidos dela.

Isso ninguém me rouba.


 se sobreviver, arrisque-se aqui:




Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.