texto de Manoel de Barros

Sábado, Janeiro 31, 2004


A CARTA


(apenas uma carta ao amor da vida inteira)



Essa hora decerto já lera a carta. Confessou seria a primeira coisa que faria quando pusesse os pés dentro de casa. Rasgaria com cuidado o envelope, pela borda que se desse mais facilmente, perscrutando os caminhos itinerantes palmilhados por dedos de mão, olhos de tatos sabedores das emoções do quente e do frio.

Ouviria Villa Lobos, talvez para lhe adormecer instintos, talvez para acordá-los. Talvez para dar asas ao papel. Corrompido o envelope, saberia como proceder com as dobras daquele corpo delgado, com as entrelinhas, com o mistério manuscrito às vésperas da revelação.

Que diria por fim à carta ao seu leitor? Que espécie de revelação traria? Fazer o que depois do último parágrafo? Haveria de ficar como? Aturdido? Grato? Feliz ou triste? Era paixão confessada? Era dor acumulada? Era um adeus?

Nessa altura de acontecimentos, a carta, já em posse de um novo lar - uma gaveta, um bolso de paletó, uma dobra de fartos seios, as mãos de uma criança, ganharia o tempo, até que voltasse novamente a ser lida.

Mas não era hora de pousar os olhos sobre o futuro. O ato daquela encenação, tão real, ainda não se encerrara. A cama de súbito pareceu desconfortável em demasia. O peso do corpo sobre a cama não sustentaria o peso de uma noite inteira. O peso era assaz leve para sustentar a gravidade etérea do sono, da espera. Exigia o dobro, suficiente de dois.

Era até perigoso dormir naquelas condições! Uma hora acordaria a metros do chão, e nunca mais voltava, e se espatifava de volta na terra.

Remetente temia destinatário. Destinatário, remetente. Ambos embrulhados no medo-querer de seus lençóis. Por um átimo, dois pares de olhos se encontraram no céu.

Instrumentos emudeceram, até que a noite se calou para sempre.

E todos os dias que substituíssem aquela noite seriam para sempre e somente noite. E seria para sempre primavera, num florescer de nadas, encharcado e morto. De medo.


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Terça-feira, Janeiro 27, 2004


Agnes, Rubia e um pássaro arrependido


(para todos aqueles que perderam alguém que muito amaram)



Olhando assim, em retrospectiva, parece mais natural do que realmente foi. Parece óbvio, inexpugnável. Parece que foi ontem, e não foi. Parece que ela esteve aqui do meu lado, desde sempre, e que eu não preciso mais que um pulo para alcançar sua cama, e acordar a dorminhoca a dormir sem véus ou lençóis.

Talvez o esforço (sempre consciente) que eu faça para me apartar do meu objeto de eterno desejo e sofrimento, tenha feito de mim um alguém aterrorizado pelo genocídio da emoção. Talvez a dor da perda me tenha transformado em vítima e algoz de mim. Talvez... Bem, talvez eu não devesse seguir com essas lembranças de ontens.

Por mais longínquo que pareça ser, a cantilena monótona e rouca de Agnes, me arrefece o entusiasmo até hoje, de dor e de memória, pela saudade eloqüente dos nossos tempos de menina. Pela cidade que nos viu nascer e morrer, pela face gloriosa dessa morte-vida que é, senão, uma pequena linha na história universal.

Nascer é morrer pouco a pouco, isso todo mundo sabe. Só que eu não sabia. Eu e minha fé cega na faca amolada da vida.

Agnes sempre me dizia:

- Vamos combinar, eu nasci pra ser estrela! No dia em que eu for cantora reconhecida arrumo um jeito de te publicar, e fazer com que o mundo saiba de ti. Rubia Woolf, Rubia Dickinson, Rubia Stein... não, não... Rubia Mansfield: a maior promessa da literatura contemporânea. Promessa não, realização!

Eu sempre ria daquela explosão-menina que era Agnes, do seu impulso diabólico de me torturar com sua santidade de louca, porque eu sempre achei que os maiores santos fossem loucos, no melhor sentido da palavra, e sempre acreditei que loucos sem menores virtudes também haveriam no fundo de ter vocação para santo.

Era única, a menina Agnes. Seu sorriso era como o da foto. Ela sempre seduzia os menestréis, com a voz entorpecente, e o jeito morno de dizer sim. Não havia quem passasse neutro à uma audição com ela. As chansons francesas eram as suas preferidas.

- Minha Edith Piaf - eu implorava, cante para mim, que sou uma desditosa e preciso me matar! Não há melhor maneira de morrer que ao som de uma cantiga francesa. Nem Ana Karenina morreu de maneira tão graciosa.

Risos novamente. Gargalhadas de desejo e sal. Éramos atrizes da Companhia de Artes Dramáticas das Mulheres Enjeitadas, e outras tantas brincadeiras. Amadoras na vida real.

Éramos desde sempre, Agnes e Rubia. Éramos um vício, a mão e a luva, o vinho e o Baco, numa amizade sem fim, porém ambígua, porém necessária, porém vida.

Não obstante visitá-la hoje com flores, não ouso eu mesma mais roubar uma pétala que seja do jardim da vizinha, como quando fazíamos na infância. Roubar flores sem Agnes, seria arrancar com a mão o cheiro da rosa, e fazê-la murchar só com o olhar. De tanta saudade.

No dia em que me deparei com aquelas asas quebradas de pássaro prenhe, no dia em que divisei aquele olhar triste grasnando como um corvo a dor de perder o vôo, um arrepio de horror me subiu pela espinha, como que predizendo o futuro, como que antecipando, em recado, a minha despedida.

Eu a vi naquele bicho, adivinhei Agnes nele, vi a menina que ela era, brincando com os arvoredos, roçando com as cores, inventando modinhas, tingindo de púrpura o papel, que também chamuscava no cabelo, ensaiando a morte no pássaro de asa quebrada, arrependido por ambicionar o vôo mais arriscado e bonito de sua curta existência de pardal.

Aquele espantalho de ave me assustou, agonizando no túmulo dos meus dedos. Era Agnes que eu via em olhos baços de adeus.

Foi assim que passei a guardar a foto de nós duas na carteira.


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Breve introdução


A gente nunca sabe a extensão de uma perda, até que percamos algo ou alguém de verdade. A gente nunca espera perder, ser derrotado, mesmo quando todas as probabilidades apontem para esse caminho e a vida nos ponha em xeque-mate.

Mesmo quando nos roubam os sapatos, levam embora nossa alegria, nossa firmeza de espírito, ou nosso coração, a gente quase sempre acha um motivo novo para continuar vivendo, uma explicação que sirva de bálsamo para a dor de não ter mais o objeto do nosso amor, o vestido preferido com que se ia às festas, os pais que adorávamos, ou os filhos que partiram prematuramente antes mesmo dos mais velhos haverem se despedido.

Nascemos com um bichinho dentro da gente chamado esperança, e por conta dessa danada, arriscamos até a nossa alma, nossos sonhos de infância, aprendemos cedo cedo o significado difícil da palavra adaptabilidade, que é quando a gente se acostuma com alguma coisa, sem se acostumar muito bem com ela.

Adaptar-se é saber conviver com toda sorte de novo acontecimento que muda o traçado habitual das nossas vidas, diferente de conformar-se, que inclui um maior ou menor grau de desistência frente à luta que embasa todo desejo de mudança.

Adaptar-se não é se conformar. Conformar-se, por sua vez, não é desistir, é estagnar. Desistir é mais perigoso, tanto quanto lutar. Só que são perigos de naturezas bem diferentes, com resultados quase que antagônicos e recompensas mais ou menos saborosas.


***


EM CAPÍTULOS



História de Ágnes e Rúbia


continua hoje ou amanhã


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Domingo, Janeiro 25, 2004



Sinto falta da companhia de Deus. Sim, eu sinto. Da segura presença d'Ele a alimentar a alma, a proteger o corpo dos irremediáveis revezes da vida.

Sinto ausência da fé inabalável de que eu dispunha, da Franciscana paz que me acometia nos momentos de oração, da paz de pássaros, tulipas, do religare com a natureza. Paz de arbustos, paz morta para o mundo, flora beata consentindo a vez da dança, e um cântico harmônico ninando as atribulações.

É carência, sim. Do amor sem respostas e das muitas crenças.

Não o decrépito amor, inseguro amor, médio e pequeno-burguês. Amor de palacetes, sangue azul... Esse amor não! Tampouco o amor à ciência, que é outra espécie nobre, porém outra de amar.

A falta é dos dogmas, dos ritos do amor. Da incógnita permeando o amor, que é uma religião em si, de dois ou de mais seguidores. Pois "quando dois ou mais se reunirem em Meu Nome, eu estarei no meio deles!". Constrange-me a falta desse amor. Punge-me o peito e me assassina. Amor que não se explica.

Cair em tentação nem é tanto o mal de que me escondo, de que me encabulo. Trazer a maçã, as serpentes nuas, pra dentro da Eva, primeva em nós. A maçã não é bem um mal, mas um modo de amor, é o começo.

Da tentação eu comungo, do medo não. Corpo é correnteza, deve ser atravessado e flechado, deve ser rendido, vivido, experimentado. A carne é o caminho único à santidade.

Eu não creio em Santo, eu cria em Deus e talvez eu ainda creia. É bem capaz.

Eu cria na paz absurda despontando por entre meus dedos, olhos, extremidades dos pés e da boca. Eu cria na paz que representa crer, no ato santo e transcendente que a fé me inspirava, nas escaladas, no alto sentir.

Então me perguntam:

- Falta de Deus?

- Sim, vazio por dentro da espiritualidade.

- O que a faz achar que Ele está distante de você?

- Eu mesma?

- Ele prometeu que estaria conosco todos os dias e por mais que você corra d'Ele, Ele te alcança.

- Me alcança?

- Sempre alcança.

Sinto falta da companhia de Deus. Sim, eu sinto. Sinto falta de mim.

Vai ver é isso.


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Sexta-feira, Janeiro 23, 2004


Na casa em que morei



Na casa em que morei não houve muitos nascimentos. Sendo filha única, dividi a graça de irmã com o sexo oposto, fui a eterna caçula de uma mãe muito coruja, e de um irmão carinhoso.

Na casa em que morei - e foram tantas! -, a natureza fez controle de natalidade. Fomos a geração mais castigada pela seca. Poucos óvulos fecundados, uma estia de barriga, de dinheiro, de gente ao redor da mesa, de pipa empinada, férias de verão, praia em Guarapari.

Eu nunca estive em Guarapari!

Na casa em que morei, moraram os pais dos meus pais. Morou a extensa família de minha mãe: nove irmãos, nove universos inteiros que triplicariam a família não fosse o patrimônio esquálido, não fosse o medo de criar, e de ser criado.

Não houve muitos nascimentos. Pertencemos à geração que mais abortou e foi abortada. Foram-se os sonhos, os 80's, década perdida. Nasci pouco antes que a população envelhecesse. E foi-se o tempo em que não ter tv em casa representava algum perigo.

Pobre tem cachorro e filhos. Rico tem filho-cachorro. O que não é uma regra, mas também não é a exceção. Rico tem cachorro e não tem filho. Pobre não tem casa.

Na casa em que morei, houve renascimentos, muitos! Porque o amor foi o útero que não tivemos. A pátria que não escolhemos. O sonho que adoecemos.

Amor significou, no começo, encarar o vazio dos cômodos, sentir doer no regaço da matriarca a longevidade ameaçada, desmoronada de obsoletas tradições. Na casa em que morei, não morou meu pai não.

Moraram inquilinos. Não pagaram aluguel e foram despejados pelo proprietário imigrante. Morei trimestre por trimestre, diferentemente. Alugavam pra verão a casa em que eu morei.

A casa em que morei nem tinha sótão, não se brincava de peão, e a sombra nos corredores era corrigida com lâmpada elétrica. Na casa, não havia mais fantasmas não.

"Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada".

Nada, nada.

Só amor.


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Quinta-feira, Janeiro 22, 2004


A criança ergueu seu corpo de pequenas lendas, e riu, como se fosse a primeira vez. Correra a vida breve, desde o parto, irretocável momento de corte e luz. O parto foi a dor desgarrada e nobre, aquiescida de um sim de mãe; explodindo a vida, em sangue, em gozo, em berro, em jorro, em luz. Diminuta e diáfana, a taça daquele corpo, embebido em instintos, recobriu de vermelho o sangue por dentro das veias. E toda a sorte de vermelho que encontrasse, seria para sempre a cor do de dentro. Com magia de coisa posta em abismo, dançava meio que aos berros, na companhia agreste de sua insensata solidão. De negro e baço olhar, de acastanhada promessa. E todo riso dissolvia a atmosfera em sobrenatural, como lágrima se despedindo do céu, como fortuna acontecendo da terra o alimento. Era ingrata a companhia da mãe, posto que desde o início prevaleceu a nua selvageria do parto, o feto-instinto moçando as carnes cruas. Cheirava a incenso, e era natural aquele ar velho sobre os destinos...

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Segunda-feira, Janeiro 19, 2004



Não gosto do jeito que me encaram as baratas. Não gosto das antenas captando minha repugnância mal-resolvida, do risco de virarem nojo no calçado, nem da falta de privacidade dentro do meu próprio lar. Madrugada e barata no banheiro não combinam, definitivamente. Mas é quando as teimosas mais se alegram e optam por aparecer.


***


Mudar o visual é sinalizar de fora pra dentro que a alma quer trocar de moda! Esse corte novo é pra acentuar de uma vez por todas a cara de quinze e furar balões de pensamento que me acompanham aonde quer eu vá.


***


E você acha que nós não temos futuro, pressente apocalipses emocionais, ressente-se, se entristece, enquanto eu me tumultuo em conjecturas sobre o amor de esquinas. Eu ando mais pateta, e sinalizo independências que fogem ao controle da possessão alheia, amor que me brinda nas fendas com chaves (de perna) que abrem e portas que se fecham. O amor é um caso sério.


***


Aceitei a terapia e vou cometer análise, conforme me disseram. Eu só aceitei porque ela tem uns olhos azuis de menina! uma cara boa de criança por trás da maturidade de mulher. Suponho que quando somos capazes de ver a criança por detrás do homem ou da mulher, podemos confiar.


***


Me disseram que eu enrolo quando escrevo, e que deveria escrever crônicas. Meu ritmo é de romance.


***


Manhãs são boas para que as noites se desprendam simpáticas do céu. Manhas são crianças pedindo carona na chatice. Eu não respeito minhas horas de sono e deve ser por isso que elas também não me respeitam. Trapaceio com a noite, mas são as manhas manhãs que me vencem.


***


Morro de tédio de existir. E de contentamento. É um frisson neutro sob holofotes inteiros. As cortinas (e as pernas) uso para ser mais feliz.


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Sábado, Janeiro 17, 2004


PRA DIZER ADEUS


Eu não sei se é o acaso que sabe seduzir, ou se é o encontro entre duas possibilidades cortantes, jamais saciadas, que nos faz violentar o pacato sossego do casto, em prol da urgente e consentida arrogância de querer. Agora, quiça pra sempre! O querer é violento e rouba fidelidade das mais nobres intenções. Estupor para com o pecado alheio. Em sendo o nosso, não haverá nunca demérito numa cama dividida. E bem dividida! "Te acaricio a margem neutra dos cabelos enquanto te lambo a virilha". A frase aquecida de sentido-instinto é feto de desenvolvimento instantâneo: já nasce na concepção. E tua pressa dentro de mim rosnando amanhãs. E tudo mais é o amanhã. Caminhos supostos, valores imbricados uns nos outros, como as telhas de um telhado, ou as escamas do peixe. A pressa de dizer o que é o certo, enquanto se tira a roupa de baixo para o banho. Não haverá crime de que eu não me arrependa. Não haverá crime que eu não volte a cometer. É lancinante o verbo da manhã acordando o sol num despertar magnífico de pássaros; meio raio, meio gente, instigando o teu jeito manso de me dizer sim. À borda do cálice de intrigas, peço um espumante e trago comigo a fumaça do grito de alerta. Ontem à noite foi ontem à noite. Resta o amanhã entre o ontem e o presente. Eu vou ser é mais elipse, mais anacoluto, esquecer a condicional porque se eu te merecesse, eu não te idealizaria. E as cortinas ventam soluços esquecidos num momento de senão. E a horda toda roça esse emplastro-medo de viver na cara da gente. Medicamento que amolece e adere no corpo, adere na alma, mas não se converte no remendo que remendei. Remédio fajuto. Há de ser o medo do sono, o medo de sonhar. Uso minha cama pra dizer adeus. E vou.



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Segunda-feira, Janeiro 12, 2004


Entre 1 e 2 de sonho ou
Quando Loucura resolve perguntar



Tem gosto? Tem cheiro? Tem textura? Que olor? Morde? Prende nos olhos? Na alma?

Hum... É acastanhado! E tem lugar pra raiz!

É bonito? É feio? Acende de noite? Acorda durante o sono? Faz neném sorrir?

Demônios devoram? Sangra quando dói? É o impossível? Hemorragia na aquarela?
Fumaça distraída? Silêncio das pedras?

Venta? Tem nadadeiras e sacode de preguiça?

Hunrun... Hein? Ooops! Tem ânsia! Tem enjôo! Movimento de barco, de coito, de pós-parto. Tem infinito, marte, um monte de órbita, espaçonave, hidróxido de risol...

A gente ri muito, é?

Ui! Ai! Ai! Hum... Uia! Eita! Ufa!
É... parece com... tudo! É nada! Sacudindo sem movimento.
Tem crina de cavalo e... ai! É tão quente!

Morre? Repete? Alucina ou destrói? Brinca de tumulto? Inventa pensamento?
É catarse devorada? Joguinho de invenção? Bolha criativa? Vesúvio, parador...?

Estica? Dissolve? Er... Ops! Nuvem e uns nadas. A cordilheira?

E tem início, tem? E veio de onde? E vai?

Acontece que vai e não vai. É, não é sendo. Destrói, retifica.

Assim? Não pára? Até quando? Todas as coisas? As cortinas? A fome? O medo da morte?
O medo da vida? Coragem soerguida?

Todas as coisas e um branco no meio. Vê só, um branco dentro...explodindo: intertexto, léxico-pensamento, fonema indecente, gerúndio recatado, sobremesa da namorada, bigode aparado, dor de cotovelo, uns pelos a mais, umas curvas de menos, a estrada de Santos.

Santos? E guerrilhas? Os demônios não devoram? Não sangra quando dói? Hemorragia na aquarela, fumaça distraída, todas as coisas, catarse repetida?

Não?

É sem cessar. E o alvo silêncio é a flecha de morte-vida do meu sono ferido de magia.
E não cessa, não se entrega, não dá ponto sem nó. É loucura branda de vida.


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Sábado, Janeiro 10, 2004




Minha vida é um templo, no interior do qual eu me exibo, destino minha fé, de dias tristes e bonitos. Tudo em parte ganha significado único, nessa clausura de coisa-dentro metida em abismo. A sepultura é viva, é cheia de flores. E os canteiros gracejam sobre a estátua os tormentos. Por isso um girassol rosna no céu da boca a crisálida existência. Dentro da apatia: dogma. Para além do feitiço: cientificismo. Persigo instintos dentro do cárcere-martírio. Graciliano Ramos - de girassóis. Memórias minhas - e de Adriano. Livros que não li. Beira encantos a solidão da lua, almejo um código de insólita transcendência. Sei que é final, é passagem esse tempo, soldando fortunas, no rio do caminho. Minha sorte é diversa; penetro mistério absurdo pensamento. Nada que me deixa é só pensamento. O que foi fogo é fuligem, menos verdade que encanto. A menina de bochechas redondas me sorri os destinos. E há sorrisos para além de horizontes. Não fosse a memória atenta do homem. Um dia eu me descobri sem memória. É tão triste, é roto o caminho. Os desmemoriados se lembram e alucinam, depois esquecem para sempre. A abertura é fina na válvula do cérebro. Preciso da chave para abrir o que persigo. Falta a chave. Sumiu a porta. Há um muro frágil que eu pulo não só quando quero. Essa coisa me vestindo o meu dentro. Eu invisto e saio às ruas. É tudo nu por dentro. Os vestidos não têm vez, por isso a voz é nua. Eu tenho a madeira, matéria-prima pra porta. Mão de obra é a mão do tempo. Decido me aproveitar do tormento. Talvez eu saia, talvez eu fuja, talvez eu derrube esse forte armado de orações. É quando a crisálida desarma em vôo o nado borboleta. Vão ser livres até o fim dos tempos: eu, a borboleta, e minha memória pouco atenta, porém fiel, no quase sempre.

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Domingo, Janeiro 04, 2004



A semana pede descanso. Descanso pede paz. Paz é coisa de árvores e vinhedos. Dá nas matas, nos pássaros e na ponta dos pés. Paz é massagem na alma, dos pés à ponta.


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Quinta-feira, Janeiro 01, 2004


Milagre!


A Terra de Vera Cruz. Um monte 'mui alto e redondo' surge no horizonte
e a esquadra de Cabral encontra a terra que viria a se chamar
Brasil!



É milagre! É milagre viver. É milagre o milagre da vida! Milagre explodirem tantas bolinhas do céu! Milagre o grito de 'QUERO MAIS' da menina; e toda horda, na praia, enfeitiçada pelos risos estridentes da menina, que estriavam o céu, borbulhavam no champagne, na cachaça, na vodca ou na tequila. Na cara boquiaberta de Iemanjá olhando pra Deus. É milagre! Sentir na pele esse frescor da manhã, pelos uivos do novo dia, e pela natureza apertada querendo fazer xixi. Milagre! O sopro criador da existência! Esse monte de gente pisando nos pés da vida. Grãos no céu explodindo o céu! Chuva de prata, chuva de verde, roda estelar. Vermelho do mundo, estalos da renovação. Na areia fria: recados pra Iemanjá! No frio da areia amornando águas, sendo abençoada por pés e bundas da criação. Sendo abençoada pela fé! 2004. Fácil de escrever no papel. Escorrer nas curvas do dois, dentro de olhos sérios dos zeros siameses, entre dobradiças de quatro. Abençoado o frescor primeiro da manhã. Cabral na Terra de Vera Cruz, ruínas da civilização, medievos do tempo, renascentistas, filósofos, gregos, troianos.... Todos vieram festejar! As Arcas de Noé trazendo o tempo. O vento revirou o mar, que virou céu. A humanidade festeja a graça do porvir.


É meio doloroso ser agarrado pelo tempo. É meio essencial ser gente pra sentir...

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Preciso jogar água no meu corpo...



Preciso jogar corpo na minha água...


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