Terça-feira, Dezembro 30, 2003
A Cidade
Acabo de chegar à cidade. Mas é como se a cidade tivesse entranhado em mim. Seu sal, seus sóis, sua gente enfeitiçada pelo mar. Eu enfeitiçada pelas lembranças de minha memória afetiva, pela decifração dessa língua proibida que é o amor. Nem venho de tão longe, mas minha boca diz que atravessei o sertão inteiro para estar aqui. Ou é o sal corrompendo a harmonia da umidade no corpo, arranhando o corpo, desnudando a nudez do ontem, eu menina, eu mulher. A praça, os caminhos que eu fazia até chegar a casa dele e gritar seu nome para que fôssemos a qualquer lugar. Hoje ele é pai e eu não faço idéia de como estão seus olhos. Hoje sou mãe de palavras arrastadas pelo vento que venta aqui de um jeito que não venta lá. Quando é Sudeste a força do mar invade as calçadas da minha imaginação, mas sou apenas uma mulher brincando de menina, crescendo com a dor. Não que eu lamente, saudade é quadro contemplado na memória, como esse que está pregado na parede do amigo que me abrigou na cidade perdida. Arte abstrata? São uns riscos e matizes avermelhados, e tem uns verdes que devem ter sido vegetação na mente do pintor. Mente abstrata. Lembrando os ventos, lembro a mim mesma, e a imagem que pinto do que eu era decerto não é a imagem do que eu era. Tampouco a essência, que é um bicho arredio, que vive nas selvas da gente e se deixa entrever apenas quando as almas estão limpas, de rios que escorrem e fazem arco íris com a chuva. Coloca na pedra um lagarto que sorri. E frente ao inusitado, a alma também sorri, e a essência emerge. Pra depois decair com o sol. O retrato da minha essência conservado na memória decerto não é a essência da essência do que eu era. O que eu era? Rubem Alves, no livro Retratos de Amor, devota um capítulo à "Você e seu retrato": "a 'foto' pertence ao mundo da banalidade: o piquenique, o turismo, a festa (...) um retrato, ao contrário, só aparece ao fim de uma meditação metafísica". A aparição é efêmera, mas o amor, não. Ainda que eu não saiba o que eu ame naquilo que amo, continuo a amar. Ainda que eu não saiba se as recordações e a sensação querida de nostalgia que eu sinto ao aportar nessa cidade é produto de um quadro que pintei pra ficar belo na memória, e nada diga realmente a respeito da saudade, eu sinto saudades. E vou continuar a sentir pelo resto da minha vida. Dizem que quem escreve é dado a sentimentos de nostalgia, dizem que quem ama desconhece as razões do amor. Ama antes de amar. Ama o rosto que coube na tela daquilo que idealizou pra amar. Ama, sem nem mesmo amar. Mas ama, e o amor é tão profundo que venta mais forte que todos os ventos dessa cidade, que arde mais que todos os corpos do verão... mergulha os pés na areia. A natureza é implacável, é mais que a gente, é a gente dentro dela. A saudade não é a do homem que eu nem cheguei a amar, tampouco da cidade que eu habitei sem habitar. A saudade é metáfora de sentir. Sentir é preciso, tal como navegar, e eu navego todo santo dia na jangada do meu sentir. Hoje eu amo diferente porque meu amor é mais maduro e sabe estar ao meu lado do jeito que for. Hoje o amor novo veio conhecer o de outrora. A chama está acesa dos dois lados, e é o meu coração o que eu queimo. É um amor devotado dentro dele, um amor que sabe das ciladas do amor. A cidade me penetrou de um jeito, que eu já me sinto bronzeada sem estar, meus pés estão cheios de areia, mas eu sequer cheguei a pisar na areia do mar! A porta da felicidade foi aberta hoje, estreita como o corredor do ônibus em que eu vim. Meus olhos me adulam pra beleza, e eu peço licença pra apreciá-la.
À todos os meus amigos, um feliz 2004. Esse é o último post do ano. A cidade em questão é Cabo Frio e nela vou passar meu Reveillon. Será uma espécie de catarse porque a companhia que sou dentro de mim é nova dentro de um espaço velho do antes. Tem também a companhia do coração, que sempre aquece a gente. E que bota medo. Mas haverá de ser bom. Soube do meu irmão que meu computador lá em casa está péssimo, deve ser crise dessa época do ano, todos ficamos mais sentimentais. Portanto, provável seja que eu demore um tempo a mais para postar, algumas semanas, não sei. Desejo que o problema não seja grave e seja solucionado rapidamente. Mas eu volto sempre, de uma maneira ou de outra. E quando eu voltar, retribuo cada visita com um beijo estalado na bochecha.
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Sábado, Dezembro 27, 2003
Menina,
Vc sempre me emociona! Sempre. Sabe qual a minha vontade? Tomar um sorvete com vc, numa rua bem bonita, pode ser uma praça! A gente senta num banco qualquer, deixo vc escolher o banco, porque, afinal, vc tem boa visão para imagens e uns ângulos bem bacanas - além de que, sou míope, posso querer sentar num tronco de árvore! (Quem sabe dali, onde estamos, não saia um poema? Ou um poema saia da gente? Um retrato bem lindo de um pensamento nosso?) Quem sabe, apenas, a cena das crianças brincando, abram as portas da nossa intimidade e fechem possíveis lacunas da timidez? Enquanto tudo isso acontece, vemos as crianças se arriscando naqueles brinquedos antigos que eu adorava brincar quando era criança, e quando sabia como era brincar em pracinhas (como são mesmo os nomes daqueles brinquedos? gangorra, balanço, escorrega - nem sei por que não brinco mais). E então, arriscaríamos nós um papo: um sim, um não, olá transeuntes!, que lindas flores!, essa borboleta é sua?; palavras confusas da emoção e do burburinho de risos infantis maiores do que a gente. O sorvete seria devorado sem pressa, embora eu não saiba como se devore algo sem pressa, mas sei que passaríamos alguns minutos a desfrutar do sabor da convivência uma da outra, da amizade cúmplice e silenciosa que eu sei que existe entre nós, da admiração mútua, mais marcante que o sabor de creme no sorvete. Voltaríamos para as nossas casas, lembrando que crianças brincando em brinquedos de praça -gangorras, balanços- são metáforas de adultos da vida contemporânea, arriscando saltos de vida e morte, balançando a vida. E então, FINALMENTE, a vida que nos sorriu o dia inteiro o sol sobre nossas cabeças, desenharia nos olhos, a saudade, na pele, melanina, e no corpo inteiro a satisfação de afeto dividido. Como uma dança. Daria até um soninho, que poderia ser ou não sonhado, porque o sonho, acabaria de ter sido vivido.
Preciso dizer mais? Adoro-te. Exatamente como és, e o meu medo era/é o mesmo. Perceberem que eu não sou o que escrevo, o que escrevo sou eu mais o agregado de todas as coisas fofas e nem tão fofas que convivem dentro mim. Tenho o rosto comprido demais, as mãos doces, uso uns óculos tortos na cara (só quando escrevo), e quando estou nervosa, até gaguejo! Meu sorriso é desajeitado, mas os olhos são até bons de se olhar.
E tenho certeza de que assim mesmo, vc tb gosta de mim.
Um beijo muito especial, minha amiga. Tenha um lindo 2004.
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Sexta-feira, Dezembro 26, 2003
LUAU DE NATAL

"É verdade que a nossa família sempre foi meio hippie. É verdade também que me aproprio (aliás, nos apropriamos) um tanto inadequadamente da palavra "luau" (...)
(...) Mas nos inspiramos no clima de um luau para montarmos a nossa ceia natalina, que foi também ceia de aniversário da Betinha, minha irmã."
Confira tudo o que eu não revelei sobre o meu aniversário "narrado em detalhes" no blog do meu irmão!
então, que achou?
Quinta-feira, Dezembro 25, 2003
Desculpe, meus amigos, mas meu cerébro é uma caixa de Pandora. Mas uma caixa de Pandora com alguns erros de fabricação. Uma caixa de Pandora paraguaia, por assim dizer. Com todo meu nobre respeito aos possiveis paraguaios, fantasmáticos ou não, que me possam n'algum dia insalubre e infeliz me ler, eu vos peço perdão. Mas minha caixa me diz muita coisa e exige que dela se retire até a última gota de minhas aleijadas palavras, espírito a gritar artérias de pensamento estourando textos, afiando o sangue azul dos nobres com suas vestes de crianças carnavalescas, bufantes, sem noção do ridículo que encerram. Então eles pensariam que se vestem em traje de gala. Como dizia, minha caixa de pandora me exige até a última gota daquilo a que eu chamo vida, porque minha vida tem sido aquilo que escrevo e deve haver algo de sagrado nisso, deve haver explicação para alguém passar seus dias escrevendo o sem nexo do nexo, parafraseando o absurdo, sem ter menor idéia do por quê, mas tendo certeza do que precisa ser dito. Então, sou um anjo, uma profecia, um apocalipse explodindo a vida minha com sintaxes e verbos desregulados. O sétimo selo há se ser a conjução sétima de algum modo indicativo que virou subjetivo, de tanto eu gritar (e gritar é verbo) que preciso de você, mas que eu não faço a menor idéia se você vai me chegar com rosas ou com espinhos. Estou muito bem, obrigada, Não preciso dos seus achaques, tampouco das suas seduções baratas. Eu te amo e não faço idéia do dia que você vai me notar. Todas as minhas palavras são a convulsão do acontecimento na sua não execução. Alguns têm fome de comida. Eu não os desmereço. Mas minha fome é você. Jamais serei saciada. Jamais terei a chance de dizer a você que vivo nessas tresloucadas palavras para aliviar o peso de morte que é sustentar os dias sem você. E quando é que alguém como você acreditará em mim? Minhas palavras são como água que secam, evaporam e vão embora e depois voltam com a chuva. Minhas palavras são frenéticas, porque minha alma é um frenesi. Grito, grito agora. Um abraço!? Por um R$1,99. Eu me vendo por um abraço, pelo seu abraço eu pago com a vida. É louco demais porque daí a minutos serei eu mesma mais a minha razão. A moça boa que vai ao cinema, e que experimenta a confusão de sensações que é estar com pipoca e coca-cola na mão e oferecer a ninguém, ou ao seu substituto, o sorriso, o meu melhor sorriso, antes que o cinema lotado apague todas as suas luzes e o filme que estava prestes a começar encene a história de nós dois.
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Breve Nota:
O tampela voltou! Visitem!
www.tampela.blig.com.br
E Boas Festas, volto ainda hoje...
declaração de natal?
Quarta-feira, Dezembro 24, 2003
"Momentos são, iguais aqueles em que eu te amei,
palavras são iguais àquelas que te dediquei".
(Nossos momentos - Haroldo Barbosa - Luiz Reis)

Chamamos momento o espaço pequeníssimo, mas indeterminado, de tempo, de instante. Pode ter sido ontem, é agora, também o será, amanhã. Desgraçadamente, nos abençoam ou nos arrasam, por segundos, e não é oportuno consagrar a vida inteira na lembrança de ruínas ou de castelos erguidos tempos atrás.
Hoje eu completo 22 anos, e penso que não é tanto tempo assim para atestar a presença da alegria, da solidão, do desespero ou da ventura na minha vida de limites emocionais. É um moto contínuo que sequer se concretiza em instante, porque o meu viver transborda p'rum além de mim e tantas outras recompensas trágicas.
É trágica a alegria que não se perpetua. Portanto, todo júbilo é funesto. São os nossos senhores acasacados, soldados da consciência que nos cobram fidelidade àquela efusão colorida de risos que prometemos pra sempre.
Mas somos viúvos, viúvos do tempo, daquela que será nossa amada imortal, viúvos da infância, viúvos do primeiro amor, viúvos da dor que esse amor o coração arrancou. Somos todos viúvos de uma alegria já morta, que inevitavelmente é substituída por outra. É preciso criar os filhos, amor pede amor, e na dor ele também se acha na figura substituta de uma dona de carinhos que também será a dona do nosso coração.
Viúvos todos nós, desde cedo, viúvos das alegrias, cônjuges tristes a procura da amada imortal. Mas e os filhos? Os filhos da alegria são lembranças, fotos no mural da casa, rosas ressequidas num velho livro, dedicatórias nesse mesmo livro que é o nosso preferido. Filhos também são o futuro. São os filhos que erguem de novo a casa, e deixam a alegria entrar.
O tempo nos torna infiéis, mas também ele é infiel com a gente. Vem, e vai como se fosse o dono das certezas do mar. Por mais que guardemos na memória um amor antigo, a vida é um corpo de jangadas que partem pra fazer festa dentro da consciência perdida. Nem sabemos por quê, mas sorrimos para um ano a mais da vida que vive em nós.
É momento de guardar com muito carinho meus 21 anos, e viver os 22 instantes que acenam como o resto de toda a minha vida.
O pra sempre é o agora. E ser feliz, hoje, é tirar do armário a roupa do cônjuge que já partiu. Limpar a dor e deixar que esse mesmo tempo vadio sorria de novo seu novo tempo de instante. Todo momento é um mártir, nasce e morre como Jesus, se imola na cruz só pra que ele nos salve da não vida, para que sejamos felizes e tristes por causa e a custa dele. E ainda morre fazendo graça e distribuindo risos.
Feliz Natal!
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UM PS DE ÚLTIMA HORA: Aos tantos e-mails que venho recebendo, o meu muito obrigada. Aos navegantes de plantão, uma novidade: fui convidade pra fazer parte do blog do meu amigo querido, Zé, ou Golfinhu2, como preferirem. A quem interessar, o endereço: golfinhu2
Domingo, Dezembro 21, 2003
Os ombros que suportam um homem
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Amanhece. Teu amor ainda dorme a teu lado, na cama que foi feita pra um, mas que na pressa do amor, abriu contornos e cabeceiras onde repousam nesse instante uma vida conjugada a tua. Os corpos de ontem, tão impregnados da doce embriaguez do amor, hoje se estilhaçam da dor que foi amar no espaço exíguo de um leito de solteiro. Repara nela: como dorme em paz agora. É quase uma deusa, não fossem as marcas arroxeadas do prazer. Como cabe nesse leito que é teu, mas que é como se tivesse sido dela a vida inteira. Repara nos pêlos do corpo, nenhum animal traz igual os pêlos no corpo como tua amante traz. É quase seda, cheira a pêssego e a saliva tua. Vê como é sedutora a cena que vos ofereço: contempla a deusa enquanto devora teu cereal com leite, que nunca falta nas manhãs de domingo. Lês sempre as mesmas notícias de domingo, devoras a vida com bolacha e pão, e perdes, e perdes nesta manhã exuberante que não volta mais, a criatura que Deus te ofertou, mulher deusa dormindo, mulher criança de sonhos, mulher envelhecendo contigo na esperança de ser tua pra sempre. Ela nem sabe quantos anos bastarão até que percas o teu medo de solidão, até que deixes acompanhá-la na tua estrada a Santiago, até que estendas a mão sobre ela e te permitas ser só, acompanhado, na fiel companhia de tua amada, até que compres a cama de casal que ela suplica há tantos anos; para que de fato tornem-te um e mesmo corpo, num leito comum. Com direitos, deveres, e uma boa noite de sono porque ninguém é de ferro e nem agüenta passar a vida toda dormindo nesse estreito leito de estiagem. Para que durmam juntos uma inteira noite. Se algo te faltas, descartas a falta, como as cartas da tua mãe que te doem relembrar. Só não descartas o medo, tampouco a mulher, que é teu inverso no feminino, tua fome de jantar e sobremesa de coração. Espreguiças na poltrona, tens pena de acordá-la, porque acordada, ela te serás outra, não mais a tua dama da Renascença, não mais a Deusa do Olimpo, mas alguém de cujos sentimentos só sabes por vozes e olhos. E porque a conhece há uns bons anos. Olhando-a enquanto dorme, tu a sabes por sonhos. É tão mais fácil, não? Tão mais atraente vê-la assim, morta para teu deleite e para a covardia da tua coragem. Por isso eu te peço: contemple mais um pouco a sereia que dorme em teu leito. Repara como inclina as mãos sobre os cabelos, a espera do carinho teu, a espera do teu jeito pouco brando e arredio de amá-la. A espera da coragem tua. Ela o ama por isso, justamente. Porque te esperas para os açoites da alma, para os prazeres do corpo, para que a protejas no inverno, e para que aprenda a proteger-te também. Teus carinhos de certa forma serão sempre pancadas, e os dela, flores frescas colhidas em campo primaveril. Tu não te conformas nem te conformarás jamais com a delicadeza da mulher que escolheu pra si. Não sabes das provas de amor que ela te dá. Na pressa de amá-la, ela soube encolher ombros como quem dobra papéis de carta para o amado; encolheu-se toda, só para que abrigasses teu sexo e tua sede nela. Só para que coubesse na mesma cama o amor, ela se dividiu toda: ombros, tronco, pernas. Doeu-te toda, para ti, para ti. Não sabes, quiçá nem no leito de morte, saberás. Mas é ela, essa que dorme em tua cama como cigana nua, que fecharás teus olhos, chorarás uma derradeira vez e nunca mais verterá lágrimas por amor a ti. Aquela que se enrosca nua em tua cama a pedir um pouco do teu leite e da amabilidade viril de homem, será aquela que dividirá contigo um a um dos teus tormentos e das tuas alegrias. Vê, repara bem nela agora. Alargou-se como a cama, na pressa d'um abraço, não hesitou doer uma vez mais no corpo para que a alma sorrisse, e para que não percebesses que seus ombros encolheram para abrigar a tua vida inteira nela.
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Sábado, Dezembro 20, 2003
Ícaro beranger canta Chico
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Sexta-feira, Dezembro 19, 2003
É de um para muitos, a comunicação. De um para um, para muitos, ou para si mesmo, que nunca é inteiramente você. É de olhos que se oferendam em bocas, de mãos que agarram idéias, armas, e que atiram com a boca verbos de AR15, e fazem chorar em leito de morte um museu nefando de antiguidades, simbologias, e arcaísmos para infiéis do presente. Tudo vale a pena porque a alma não é pequena, ela é o tempo de sua história, no templo de fábulas do outrora, e a criação de arranha céus da arquitetura do comunicar moderno. É uma caixa de fazer idéia o cérebro do homem. É uma caixa de comunicar a máquina eletrônica, aquela que faz cômputos, que calcula, que recebe armazena e envia dados gráficos, e do coração. A história do um para muitos começou num tempo incalculável para minha febre de presente, mas o símbolo da nossa sociedade cristã, o nosso Jesus Cristo, mais seu do que meu, foi um homem de um para muitos. Um para muitos é Jesus pregando ou sendo pregado na cruz, e nas propagandas e outdoors do filme com Marcelo Rossi. Um para muitos é a presença massiva de Papai Noel nas ruas, e nenhuma referência às tradições indígenas. O que se fazia antes de Papai Noel vir para o Brasil? Antes de Pedro? Pergunte à pedra porque eu não sei. Sou daquelas que crê nos olhos dizendo alfabetos a todo instante. Eu presente no branco dessa folha, tão branca quanto, a gritar para que você que me tome como coisa tua, que aplaque minha saudade de qualquer coisa, que me acaricie no leito de fazer dormir. Sou daquela que lê alfabeto em olhos, mãos, sinais do corpo. E não preciso de misticismo para isso. Não preciso de doutrina. Sou cigana do coração, eu leio minhas ranhuras íntimas, e descubro que nasci sem vocação. Todos têm uma vocação. Ou são obrigados a tê-la, porque faz bem dizer que se tem alguma coisa nesse mundo. Todos serão alguma coisa num futuro que eu desconheço. Eu sou. Agora eu sou. Eu sou a bandeirante e quero abrir minhas matas, descerrar selvas a frente, pelo poder do querer, quero desafiar as leis que esses lusitanos recém chegados às índias que não eram índias impuseram pra nós. Essa terra tem muito mais histórias do que canta o sabiá. No princípio era o verbo, mas não sem violência me arrancaram o primeiro ai e o pedido de socorro, não sem violência me mostraram que o amor bate e leva porrada. Mas que o amor enobrece com o perdão. Antes eu era uns olhos farejando com os instintos. E vivia em paz com meus ritos. Antes meu nariz queria saber se cheirava, ou se sorria junto daquela coisa imensa que as crianças abrem quando estão felizes e que nos tragam para dentro delas, nos fazendo feliz na antropofagia infantil. De silvícola, fiz-me burgo, para os burgueses. Vieram os filhos, e os filhos dos filhos acharam muito natural que se derrubassem florestas para o crescimento das potências do além mar. Minha nudez foi proibida porque seios à mostra simbolizam tudo, menos ouro. A comunicação de um para um foi proibida, e a unilateralidade, que sempre fez guerras pela história afora, cobriu a terra toda de cinza, matou os nativos que despejaram seus ritos sobre os rios da fé, acabando com o ouro no futuro. Jazidas sumiram, raças fundiram, séculos correram, meus olhos pregados no modo de dizer dos povos. O homem se vê de novo no espelho trincado que custou a vida de um animal humano. A força nos olhos do homem agora é de concreto e argamassa. Comunicar é fazer barulho e vender desejos sagrados da beleza e do amor.
Muitos para muitos. E a comunicação, onde ficou?
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Quinta-feira, Dezembro 18, 2003
EM VERMELHO
(quando mulheres abortam o que a natureza preparou para viver nelas)

Faz frio
Agoniza a tempestade sob minhas fendas
O arrepio é dorsal
E descama de vermelho a lágrima das ninfas
Dois de seus secretos órgãos
Embaralham, delicadas
Moléculas, mitologias
Arrastam pro topo
A boca e a virilha
Sequiosos entre as pernas
Prazer e pecado recobrem
A liberdade que a santa despiu
Apontam-me a puta em Damasco!
Rasgo a ferida para parir o preconceito
Reage a terra com o veneno
Que lanço sobre minhas águas.
Veneno vermelho da vida
Colore a morte com minha hemorragia
Um poema
É só um poema.
O sangue é o veneno da vida.
Incendeia de calma
O clarão entorpecido
Deste meu corpo nu.

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Terça-feira, Dezembro 16, 2003
VIDA ESCARLATE

Meu texto, já edificado na matéria imaterial do pensamento, reclama solidez de rochas, que possam lhe servir de testemunho no processo de exibição da vida.
A vida é uma grande aparição, com cenas de escarlate, tendendo ao dourado. Competindo com negras sinestesias, um palhaço na corda bamba, e outro no monociclo, equilibram seus corpos, enquanto sustentam risos na platéia.
Talvez a platéia sejamos nós, seguramente somos! Somos nós que, assistindo ao circo de horrores, nos mantemos inertes em nossas poltronas, maravilhados com o magistral espetáculo da vida.
Me calo nessa manhã negra, iluminada de fora para dentro, a fim de que deixe entrar de novo alguma sensação; a fim de que o vazio cheio de fora possa vir preencher o cheio vazio de dentro; a fim de que crianças e velhos riam de novo um riso que me leve ao choro, por um simples e transbordante amor, para com a inteira humanidade.
Esse o percurso notório da existência!
Nasci para fazer pilhéria do cotidiano, e para pôr algumas cores dentro do branco da homogenia, que tinta de igual livrarias e sentimentos, que embaça de neblina, olhos míopes do que já não é mais instante.
Talvez o torpor que consuma uma biblioteca seja mesmo o excesso de pensamento impresso! Tantas vozes, tanta polifonia muda na estante, que nem ousa acordar nas mãos de um voluntário leitor, a menos que ele faça do livro, seu interlocutor. A menos que mergulhe nele, todos os seus sonhos, mais a percepção da vida. Se assim for, nenhum livro será igual ao outro, e a mim terei assentada, com muito orgulho, a condição de mais uma na esfera das prateleiras mudas!
São raras às vezes em que acordo com esse escarlate na cara. Por que escarlate? Porque o escarlate numa manhã como essas simboliza o que só eu vejo, na cara pálida do meu sono, na cara de boneca gripada da vizinha, no amarelo ouro dos cabelos de um transeunte anônimo, que disputa comigo uma existência no mundo. Alguém que não vejo, mas sei, por afinidade ao amarelo do sol, que está lá naquela rua, a espera de que o ônibus, e de que a vida, levem-no a algum lugar.
Trilhos, trilhas... são profundezas enormes! Contêm o ontem. Pessoas passaram nelas antes de mim, e é por isso que eu sei que devo seguir por ali.
Ao menos hoje, liberei-me para sentir medo, de modo que, não sentindo medo de medo, eu pude sentir.
Algumas vezes a vida da gente se assemelha a uma sala de operações, um consultório médico, porque requer intervenção cirúrgica. A gente entra no consultório, aguarda o doutor chamar, agenda com a secretária novos serviços, e confia que o médico anestesie nossos sentidos, para que não sintamos dor. Criamos mecanismos sutis de dormência, tão perigosos quanto uma anestesia geral, e tão menos necessária em se tratando de vida.
A vida não é doença, mas em parte é como se fosse, porque dói. Tem a seu favor, contudo, o amarelo ouro nos cabelos da manhã, o escarlate soberbo, velhos e crianças a rirem o meu choro, pétalas de carinho, e um monte de vozes impressas numa livraria qualquer.
No fim, há o grande número, mais aguardado da noite: o acrobata sobe ao picadeiro e ensaia saltos no ar, ante nossos olhos atônitos. Caros senhores, aplausos! porque o medo voltou... e se fez vida.
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Roberta Tostes Daniel: carioca de nascimento, mineira de paixão, cabofriense por uns nove anos. Nascida em 24/12/1981, sob o signo de capricórnio, lua não sei de que, ascendente em áries. Filha de Marisa Tostes e Guilherme Daniel, carrega nas veias menos o sangue de filha que a herança emocional dos pais. Sabe-se que Guilherme foi poeta, radialista e homem bonito... e que faleceu em 1986. À mãe, coube a tarefa de cuidar de seus dois filhos e amá-los de maneira incondicional. Ah, sim! a menina Roberta, cognominada desde cedo Beta, tem um irmão mais velho que adora rir bem alto e fazer poesia: Teofilo que, como o próprio nome indica, deve ser amigo íntimo de Deus. Sabe-se ainda que Roberta nasceu fadada às letras, e que delas retira seu frescor, e também seu pranto. Estudante de Jornalismo, ingressou na UFRJ, trancou matrícula em decorrência de uma depressão severa, e agora, não plenamente recuperada, vê a vida com cores de sertão. Tem nas mãos todo tempo do mundo; quer um segundo apenas. Há pouco tempo transferiu-se para UERJ, onde dará continuidade ao curso. Espera melhores condições de estudo. Espera melhores condições de vida. Espera demais. Tem intenções artísticas não moldadas, como suas palavras, que não se emolduram em ornato algum. Gosta do fascínio que o cinema lhe exerce. Não sabe dançar. Mas dança. Não sabe cantar. Mas canta, ainda que no chuveiro. É propensa à solidão e à melancolia. É propensa ao amor.
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Segunda-feira, Dezembro 15, 2003
"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto". Aniversário - Álvaro de Campos
A dez dias do Natal; antes, a nove passos dos vinte e dois.
Vinte e quatro de Dezembro é o dia em que festejam os meus anos! Quem festeja?
"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma..."
Eu percebo horas correndo assustadas pelo teto. Eu percebo a teia, não enxergo a aranha. Percebo a noite espalhando poeira para o dia seguinte. Eu percebo que o aprendizado de coisa alguma se apreende com o tempo. E que tudo volta quando se quer avançar. Percebo devires sobre os sonhos da rosa. Dever de sonhar.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, era fácil festejar. Se não houvesse motivos, inventavam-se razões.
"As tias velhas, os primos diferente, e tudo era por minha causa...!"
Responda: quando foi que reparei na mesa farta em que me serviam fome? Quando foi que a fome sobrou? Essa fome da fome, quando foi?
Linhas divisórias marcam limites de percurso e tempo. Linhas do rosto marcam a dor.
Um ano a mais entre vinte e outros. Um ano entre outros. Uns, outros. Eu esqueço quando foi que o ontem deixou-se para virar hoje. Eu esqueço se a aventura de colher protege o colhedor. Protege a colheita?
Colho primaveras. Mas não colho. Colho lembranças. Mas não lembro. Semeio promessas. Adubo sem mãos.
É tudo um campo aberto à irrecuperável explosão. Uma reza, um rito, uma passagem... visão.
Ponho uns óculos e leio... Sopro as velas da andança.
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Quinta-feira, Dezembro 11, 2003
DA CHUVA AO POETA
(para Teófilo Tostes, ou simplesmente Téo, meu irmão querido)
Poderia chover de novo, como tem feito São Pedro à moda mineira, calado, um pouco resoluto demais - pra não dizer teimoso; os destinos dessa terra molhada lá fora que eu cheiro como se o passado fosse. Cheiro como quem sorve da terra seus nutrientes, e apresenta raízes improváveis que se assemelham com as raízes das plantas. Observo o cenário que avistei semana passada da janela do ônibus: canteiros alagados pela submissão à chuva; eu salva das marés, porém embriagada, a inalar o odor de terra misturada com água, com tudo que brota de dentro da terra e que ajuda as plantas a crescer. Colhido como se fossem flores, eu retiro da atmosfera esse cheiro único que eu só sou capaz de sentir quando chove. Como se fossem Canteiros na voz de um Raimundo Fagner! Na voz infantil do meu irmão a cantar memórias perdidas. Um menino que passa parte da infância se apaixonando por música e fazendo poesia, só poderia ser o que é hoje: um homem de bem. Um menino que passa a vida aos risos ,quando o mote de suas primeiras horas foi tão trágico, poderia ser tudo nessa vida! Um menino renascido. Bastasse escolher: 'quero ser mágico' ; e sua força de criança irmanada à força de alma, correriam de mãos dadas pelos labirintos das leis da natureza, que é feita de razoável dose de magia quando se quer viver muito. Poderia ser o que quiser! E choveria pela manhã, para que a poesia desabrochasse à tarde. Deve ter sido um dia de chuva, o dia em que algum médico trouxe meu irmão à vida e percebeu que o menino devia ser batizado às pressas, para que Deus não o levasse pagão. Deve ter chovido muito lá pelo céu também enquanto decidiam em reunião diviníssima se o menino voltava, ou se o menino vivia. E o menino viveu. Passou por uns perrengues, mas viveu. Jogou bola, brincou tudo e brincou tanto! Arremessou a bola da vida com tanta força, que hoje é homem feito. E seu sorriso é essa pérola linda. E sua vida é essa graça que ensina. E sua força de viver me arremessa de volta à vida. Como quando arremessou o menino na terra. E fez dele mais frágil. E fez dele o mais forte. Amanhã poderia chover de novo assim que o sol despertasse. Para que eu também despertasse, para que eu chovesse junto com as flores, para que o cheiro da terra molhada me embriagasse de novo no trajeto pra casa, e as pétalas dos meus dedos se abrissem na oferenda do carinho. Assim que amanhecesse, o menino que canta Pavarotti de manhã e desabrocha poeta à tarde, ganharia as cores faiscantes do arco-íris. E os pingos d'água seriam gentis com as nossas lágrimas. Também com os sorrisos.
Poema extraído do silêncio das pedras
Porque o verso mora na repetição
obsessiva dos poetas,
nessa mania, nessa vocação
de juntar as tranqueiras da estrada,
é preciso celebrá-lo
como quem celebra a vida;
exaltar a plenitude do verso
com a lágrima luxuriante do riso.
Porque a poesia enxerga que é mais belo
do mundo aquilo que não vemos,
é preciso lançá-la nas águas
correntes de todo rio.
Quem sabe ela não é o lenitivo
daqueles enfermos da alma,
a alma daqueles sem alma,
o céu daqueles sem Deus?
Porque a poética é avalanche
de estímulos, de sentires,
as sinestesias voam lépidas.
Porque a poesia tem residido
no caminho entre o som e o sentido,
a razão é apenas parte
daquilo a que usualmente
chamamos compreensão.
O silêncio sem altura das pedras
é aprendido neles: poetas-versos-poemas
com a mesma alegria nostálgica que medra
e desperta o aventureiro que não pude ser.
No lido os não vividos se executam,
pois no lido, nos livros, pude recolher
as vidas que sempre quis viver,
as máscaras que sobre mim labutam.
Nem sempre me olham aqueles
que dialogam comigo, distantes
de mim na dimensão ou no instante
(de versos suas falas são compostas!)
Olhos helênicos me enxergam
(menino torto e sem luz)?
Não sei saber bem ao certo a resposta
que o silêncio da pedra traduz.
(por Teófilo)
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Sábado, Dezembro 06, 2003
Quem sou?
(dentro de ti)
Não tenhas medo de mim. Não confrontas. Não fujas. Estamos no mesmo barco. Na mesma ilusão. Povoando esse corpo de abismos profundos. Recuperando a dor do não uno. Siga! E não olhes para trás. Conviva com teus erros. Teus ledos enganos. Saiba ser quantos precisares. A soma resulta em lágrima. E eu não sei? Mas somos o que somos. Nada mais. Conviva com o medo, com o denso que eu te ofereço. Não quero ser escrupuloso e altivo como tu. Conviva com teu pior inimigo, que sou eu, dentro dos teus reinos, e não te assustes quando eu acordar. Não me comunico por essas linhas gentis aqui escritas em letras garrafais. Não me questione com essa tua racionalidade de araque. Eu sou cor, foi o que disseram a mim. A energia vem cá de dentro, e como dói vê-la espargida no mundo dos teus! Já te disseram tanta coisa. E o melhor de mim ficou cá escondido, porque ganhaste o mérito de me carregares como espinho e como flor. O que produzes de melhor sou eu quem faço. O que produzes de veneno e de loucura, também sou eu. A tua fúria, onde achas guardada? O teu desconsolo é não saber quem sou. És detrito humano, e eu, tua cor. Disseram-me também. Eu sou a energia, pulsando dentro e fora do teu imundo ser. Sou parte do teu Cosmus, mas não respeito as tuas conveniências, vivo nas tuas entranhas; pra te atormentar, pra te questionar, fazer-te perder o bom senso, a máscara de arlequim, tão bela, e tão falsa. Para que, no teu limite, não saibas o que fazer comigo. Para que, por fim, tenhas de me carregar pela vida afora, como coisa tua. Um filho, uma cicatriz, um vício teu. Os minutos passam e tentas achas espaço para ti no mundo. Tolo! Acaso acredita que serás alguém enquanto lamberes as botas desses carrapatos humanos, que sugam uns aos outros, tentando ser alguma coisa nessa vida? Eu sou feio, não te assuste comigo! Já deverias saber. Eu não uso poesia; o meu poema entrou em coma desde o teu primeiro desespero, quando precisavas me ver renascido nos teus escombros, procurando o luar. O meteoro que a vida te lançou, meu querido, foi tão potente que o céu te acinzentou os olhos desde então. Por um lado foi bom, porque pôdes ver o lado escuro da vida, o feio, o pântano assombroso do qual também a vida emerge. E meus poemas desde então, não te serviram mais. O meu poema ficou quietinho como menino morto dentro do teu peito, esperando que um dia... esperando sei lá o quê! Precisavas que eu te desse sentido e foi isso o que eu fiz! Cobri-te de sentido. Eu te salvei da morte. Mas comigo compraste passaporte para o inferno. Eu sou uma espécie de Jesus às avessas, mas não sou eu o demônio. É a própria vida. Que nos faz ser o que somos. Temos essência? Mas adoramos aparência! Eu te salvo e te salvarei sempre do paraíso prometido, porque sei que vai doer muito mais adiante quando voltares a mim pedindo minhas histórias e minha criação de sentidos demoníacos. Eu te sugo, eu te queimo. Mas eu te protejo, eu te acalento também. Sou a barriga gorda da tua mãe, no nono mês de gestação. A tua espora, bem no meio dessa barriga, quente, exígua, a supliciar tua marcha. Sou o único que estou contigo para onde fores. O que dialoga com as tuas repugnâncias, o que respeita o teu dia a dia. Quando te despes, eu até fecho os olhos! Sou esse teu bicho-instinto, feio, ardiloso, profano. Mas sou um bicho bondoso! Quase.
em 16 de Julho de 2003
porque tem vezes que a força das nossas desgraças sobrevém como uma bofetada na cara, mesmo depois, bem depois, que o bem vença o mal no maniqueísmo das nossas ilusões. aprendida a lição.
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Quarta-feira, Dezembro 03, 2003
TEMPO DE AMAR
- tempo de sonhar -
No sonho, a sensação de tempo transcorrendo é um tanto diferente da oferecida pelo real - se é que há, de fato, algum real que diga respeito às coisas concretas do mundo material, dum mundo aberto pelas portas da percepção, experimento tão só dos sentidos, e que descortinam, quase sempre, a transcendência.
Isso é fato, ou feito, não importa tanto se aproxima a gente do que a gente acha que existe, não importa se se relaciona ao que a gente sente, ou pensa que sente, porque tudo redunda inútil na tarefa do existir. Existindo ou não, há sempre o dia do amanhã pra ser vivido, que vem depois do hoje, o que parece não fazer muito sentido levando-se em conta que aprendemos a perceber com os sentidos o que vai para além deles, para um mais adiante que nunca chega senão com a sem razão de querer mais que a razão, e que só a falta dela na maioria das vezes proporciona.
De qualquer maneira, há o limite da vida real sobre nós. Irreal ou não, é o limite de uma vida a que todos nós nos subjugamos, de diferentes modos, mesmo rebelados, insurgidos. A nossa rebeldia alcança até certo ponto, e depois se esmaece porque fronteiriça com a fome, com a rotina, que pede chão, água, comida e norte.
Não há Quixote que derrube todos os moinhos numa só noite, não há ventanias no corpo que se mantenham intactas a muitas noites em claro. O sono apressa a decadência de um mártir, na vigília do querer impossível, e incita ao sonho, que é a consagração do querer mais de uma vida. No sonho tem sempre espaço para o absurdo, que soa possível ao magma do inconsciente, abrasado pela seca árida e sem negrume de um beijo de cinema, roubado pela mulher da nossa vida, mas que só será nossa nas telas oníricas da nossa feérica paixão.
Então, o real me rouba a mulher, a casinha de sapê, as crianças e a música que não sairão de mim. E todas as formas que eu vir nesse mundo de cá, serão as formas abduzidas do meu mundo de lá, mais o bocejo platônico da não realização.
Haverá humour, ah sim, haverá!
E o que me levaram será substituído pelo que não sei carregar. O aprendizado será árduo e vai durar o tempo de uma conquista. O amor virá com o desconcerto de não reconhecê-lo como tal, dormirá em minha casa o tempo exato de partir para um lugar chamado saudade...
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P
e r f i l

Roberta Tostes Daniel:
Carioca de nascimento, mineira de paixão, cabofriense por uns nove anos.
Nascida em 24/12/1981, sob o signo de capricórnio, lua não sei de que,
e ascendente em áries.
Filha de Marisa Tostes e Guilherme Daniel, carrega nas veias menos o sangue
de filha que a herança emocional dos pais. Sabe-se que Guilherme foi poeta,
radialista e homem bonito... e que faleceu em 1987.
À mãe, coube a tarefa de cuidar de seus dois filhos e amá-los de maneira
incondicional. Ah, sim! a menina Roberta, cognominada desde cedo Beta,
tem um irmão mais velho que adora rir bem alto e fazer poesia: Teofilo
que, como o próprio nome indica, deve ser amigo íntimo de Deus.
Sabe-se ainda que Roberta nasceu fadada às letras, e que delas retira
seu frescor, e também seu pranto.
Adora longos passeios de bicicleta, fim de tarde, declarações de amor,
pipoca, só com cinema, e, claro, os poemas de Manoel de Barros. Seus livros
preferidos são os de Clarice Lispector, Raduan Nassar e Fernando Pessoa.
Anda querendo ampliar sua bagagem literária porque sabe que leu muito
pouco até hoje. Vive pelas letras. Suas e alheias. Metade dela é corpo,
a outra, é palavra.
Sua música preferida é a do momento. Quer aprender todas as línguas; ser passarinho, pelo menos por um dia;
ver seu rosto sem precisar de espelho; ler tudo o que já foi escrito até
hoje; conhecer Maria Madalena, e outras personalidades bíblicas.
Se tiver
um filho dará a ele o nome do pai. Se for mulher, será bailarina. Não
pretende se casar.
Tem intenções artísticas não moldadas, como suas palavras, que não se
emolduram em ornato algum. Gosta do fascínio que o cinema lhe exerce.
Não sabe dançar. Mas dança. Não sabe cantar. Mas canta, ainda que no chuveiro.
Amou sempre menos do que foi amada. Exerce uma espiritualidade própria,
mas não tem religião. Foi fortemente influenciada pelo espiritismo. Conhecer
Paris é uma de suas finalidades óbvias.
É propensa à solidão e à melancolia.
É propensa ao amor.

"O seu mais leve olhar
vai me fazer, facilmente,desabrochar
apesar de eu ter me fechado
como um punho cerrado,
você me abre sempre pétala por pétala
como a Primavera abre
(tocando de leve, misteriosamente)
sua primeira rosa".
Cummings
Canção da mirada secreta
Foram-se os amores que tive
ou me tiveram. Partiram
num cortejo silencioso e iluminado.
A solidão me ensina
a não acreditar na morte
nem demais na vida: cultivo
segredos num jardim
onde estamos eu, os sonhos idos,
os velhos amores e os seus recados,
e os olhos deles que ainda brilham
como pedras de cor entre as raizes.
Lya Luft
"Poeta é um ente que lambe as
palavras e depois se alucina".
Manoel de Barros

"Um livro tem
palavras
que fazem sonhos"
Joana Cruz (3 anos)

Flores Do Mais
Devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
Ana Cristina César

"A vida não é entendível"
Guimarães Rosa
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