texto de Manoel de Barros

Sábado, Novembro 22, 2003


Reflexões de Novembro



A segunda quinzena de Novembro veio toda especial, como previ. Veio para agravar a sede abstrata bem como para nutrir cotidianos; longe da evasão dos livros, na loucura sóbria das palavras sem dicionário, no delírio bem real e sem sombras dos momentos a dois.

Ir ao cinema acompanhada tem um sabor todo especial, perder-se na imensidão castanha dos olhos, fazer ou não promessas, dormir o hoje sem a insônia do amanhã. São pequenas as motivações da alegria.

Por outro lado, a inquietação e o rumor ecoando infinitos aqui dentro. Sempre em busca da transcendência que o cotidiano jamais conseguirá proporcionar. Sempre em busca do mais que fica bem perto do quase. É dessa luta permanente que se constitui o claro-escuro da vida, entre o vivido e o sonhado, idealizado, experimentado, por fim, aprendido. A gente é criança que precisa de abajur para as noites mais escuras. Quando escurece, a nossa criança se apega a mais remota luz, ao excesso dela na memória, e com isso permite o frescor de repouso da sombra.

As divagações abstratas confrontam-se com o café da manhã em comum nessa semana compartilhada de Novembro. Poucos os momentos pessoais para deliberação. Imiscuo-me no cotidiano alheio, de modo que muito pouco do meu me sobra para reflexões pessoais, para a troca gentil nesse lado de dentro do monitor.

Pouco ou nada me sobra de meu porque tudo descamba pro nós; e se eu pudesse escolher haveria sempre mais pausas entre um momento e outro. No momento em que minha perna invade a sua e eu viro o amor que resultou na metade cingida de dois, um clarão da minha alma me apontaria a divisão e os limites dos nossos corpos, que não são apenas corporais.

Porque há um limite de alma na superfície celular do meu corpo. E antes do nós, haveria mais linhas divisórias para que a fusão que derriba nossas caravelas em mares de corpos e sensações comuns, também moldasse de maneira a deixar mais visível a fissão sobrevinda do amor, que redunda sempre na aquisição de energias e emoções pessoais intransferíveis.

Toda agremiação de corpos, de idéias e de almas contém também os caminhos de sua própria segregação. E se viro nós, é porque um dia não fui você, fui lisa na corda bamba que nodula mãos, e a experiência. Depois eu viro você para ser eu.

E se perdesse o encanto saber mais dos limites nossos, a gente se reconstruiria com os vestígios da fissão nuclear. Toda sorte de energia evadida reergueria minha matéria atômica, densa, toda minha, mas que só reage com reagentes que não são meus.

Na mesma medida, meus íons, que salgam outras águas, nesse Novembro de correnteza pacífica e profunda, conjugariam meu corpo, meu verbo e meus pensamentos no corpo de outra pessoa, no verbo de outra pessoa, que sou quase eu revivida em dimensões sentimentais.

E o que nos sobra então da vida a dois, é remanescer e continuar...




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Segunda-feira, Novembro 17, 2003


De sombra, de riso e de lágrima



Me ligaram ontem, depois de uma crise. E eu atendi o telefone como se fosse a coisa mais natural do mundo ter crises, e depois, atender telefones. Eu atendi a minha tia como quem colhe flores num jardim em alta primavera... atendi aquele telefone sem me dar conta de que xingar não é ofício de telefonista. Minutos antes, era o caos que ela ouviria, ali bem dentro do nosso quarto sujo, as fronhas suadas, e dentro do meu travesseiro, todos os meus sonhos, as minhas lágrimas, e o meu desespero. Eu olhei pra você tão enfurecida, olhos tão baços e negros, que não consegui ver muito além das duas bofetadas que eu tinha pra te dar. Mas eu me controlei, não me controlei? Engoli todo o deserto do mundo, e engoli seco. Senti aquela areia rasgando a garganta enquanto eu gritava; eu fui ficando rouca sem me dar conta de que um dia a minha voz é quem vai prestar conta ao tempo, e às sucessivas voltas que o mundo dá. É cíclica a minha atmosfera, e os humores são sombrios desse lado do peito. Mas ninguém haverá de saber. Não como nós sabemos. Como soubemos. No máximo, eles ouvirão falar dos meus berros, das minhas tantas crises, e do meu desconsolo. Me disseram que isso é doença e que tem nome, me deram até uns remédios pra eu tomar, e agora todo o mês eu tenho que expor o meu inferno pra uma moça muito simpática e bem intencionada; como se isso fosse um exame psicotécnico que qualquer idiota faz pra confirmar o óbvio de suas capacidades óbvias. Mas o meu inferno não é óbvio, bem como não é óbvia a bofetada que eu te dei. Dói em mim, até agora, e me sangra por dentro saber que fui eu quem dei. E por nada! Por conta do raio dessa doença que você diz que eu tenho, e que eu chamo desilusão. Eu olho pra vida e ela é tão bonita, tão única, tão rara, que me desilude. Dos meus rompantes românticos, da minha insensatez, fica a idiotia. Por acreditar que a vida é menos do que ela realmente é. Mas não, ela é perfeita. Só que é tanta vida, tanta gente nas ruas, tanto lixo no chão, tanta beleza e tanta feiúra, que eu tive que esmagar num canto qualquer todos os meus contos de fada. Porque isso tudo aqui fede, mas é isso tudo aqui que faz valer a pena. E se eu prestar atenção, se eu cheirar o canil do mundo, eu vou perceber que não é tão anormal assim dar duas bofetadas em alguém e depois sair sorrindo. Trocar gentilezas ao telefone, e trocar bofetadas como quem colhe flores. É isso que desespera, que arde, que sangra, que lateja. Porque não existe só o lado de cá. Há sempre ambivalência, e a minha crueldade mais mórbida foi acreditar que há uma única maneira de pensar a decência. O meu erro foi também acreditar que eu era esse alguém tão decente, tão amável, e tão dócil quanto pensavam que eu fosse. E que para voar, bastava a imaginação. Mas eu descobri ontem que eu sou o instinto de defesa e que eu me defendo como posso da minha benevolência. Por isso eu ataco. Por isso eu confronto. Porque a poesia da minha vida é feita de sombra, é feita de riso; e de lágrima.


É bom reler essa grande lágrima que é o meu texto no rosto de meses já idos, e perceber que hoje há um fosso a nos separar. Eu não sou de reler meus textos, é cansativo olhar-se no espelho de palavras que já não nos servem mais. Doloroso vestir a roupa do túmulo, abrir a cova e rever-se apartada do corpo, rever-se mais alma que corpo, na vida que é sucessão. Sucede uma temperança que eu não sei se é a prévia do caos. Meu grande caos hoje é o silêncio. Tenho por bem achar que toda grande calmaria precede o tumulto, porque toda chuva é precedida de alterações na luminosidade e na calmaria que a anuncia. Todo abalo sísmico é o potencial destruído da paz na solidez das rochas. E a vida toda é um terremoto e estremece as cortinas do meu pequeno quarto, faz mudar o cheiro do ambiente enquanto um vizinho preguiçoso na janela me olha com simpatia forjada pela curiosidade que vizinhos comumente têm. Mas é vantajoso para o espelho anunciar a nova silhueta de sua dona, bem como seu riso de satisfação. A grande vantagem de olhar para trás, nalguns momentos, é perceber o rastro do caminho percorrido até aqui.



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Sábado, Novembro 15, 2003




No momento de revê-la uma outra vez, precipitei-me em risos de ribeirinha, os que aprenderam a escorrer aos ouvidos o som das selvas íntimas: um córrego, uma cachoeira mãe de sons vazando infinito.

Nela tudo se cria, tudo se transforma e derruba a lei de Lavoisier. Nela há um formato de garganta que na verdade é o céu promovendo acordes, debandando nuvens em dança.

Nem preciso escutar para ouvir. Nem preciso olhar! Sinto, entremeio, intercepto passagens da visão. Nem preciso querer para me emocionar. É tudo anterior, é tão abstrato; é só o que posso.

Rispidez de retinas que ensejam a visão. Rispidez de ossos que quebram a matéria calcificada dos sonhos. Rispidez de vasos que dilatam entranhas. Nada é o mesmo onde o mesmo está. O jorro decepou a calma e veio o ventou forte derrubando ecos no meio do negrume iluminado que é a minha ilusão possessa.

Me permiti seguir, e foi tão vasto o mergulho, que eu não voltei para contar.


***


(Depois conto do show em que fui ontem. Ana Carolina com seu estampado preto abotoado. Vestindo preto, cantando multicor. Eu sempre mergulho nessas sinestesias, sempre reverbero junto com o som. Sobretudo quando a gente pode ver o valor intrínseco e subjetivo daquilo que objetivamente vemos. Quando podemos ver, de fato, uma multidão no palco, em forma de uma pessoa só. Foi tão bom que eu nem sei se realmente vale a pena contar. É que não quero desmoralizar a minha objetividade sórdida. Com ela teço meus argumentos no mundo, com ela penetro de novo as camadas da aparição física. Com ela até conquistei meu 9.0 na prova da UERJ e estou a um passo de voltar ao mundo acadêmico. Contudo, ela não me supre a devoção por Teresa D'ávilla, por exemplo. A Santa dos Pés descalços, da alma nua, a santa-poeta que junto com D'ARC e São Francisco refaz minha profana fé. No homem, transcendente, a fé no überirdisch de Niezsche).



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Sexta-feira, Novembro 14, 2003

Ama(antes)
(para duas flores urbanas)


Acabou, agora tá tudo acabado
Seu vestido estampado
Dei a quem pudesse servir
Agora que eu não posso mais caber em ti
Não quero te ver
Dizem que você não quer mais me olhar
Como velhos desconhecidos
Se você não me escuta, eu não vou te chamar

(Vestido Estampado - Ana Carolina)


Você dizia que, bêbada, eu tinha muito mais sex appeal. Ou era você que também se embriagava, e de bêbada que ficava, sabia tolerar a fraude da minha beleza fermentada, comendo você com os olhos? Eu me liberava para testar ridículos e para fazer distância dos limites que eram nossos. Eu adolescia na tarefa de te desejar. Eu era um todo compacto de impulsos sem exaustão. Eu era! Você foi a primeira por quem eu subiria os lances todos da escada só para fazê-la rir do meu cansaço, da minha ofegante sensação de amá-la mais e mais num pra sempre que dura senão um segundo, com toda minha infidelidade de criança dormindo o sonho que mais lhe apraz. Você tinha uns olhos de gata acordando que eu nunca vou poder esquecer. Sua voz era toda de um silêncio rouco que me prendia na garganta, vontade de rasgar a lua da pele e siderar, vontade de mundo, vontade de fazer alvo com pétalas, ombros e gineceus. Eu te esperava todas as horas das primeiras noites para sentar à mesa mais sórdida de um bar qualquer e te mostrar o meu sex appeal. Havia um ronronar de gata no cio permanentemente aturdindo os ouvidos do desejo. Esperava até que nossos medos dessem lugar aos olhos do encontro. Meticulosamente o nosso silêncio poupava frustrações. Porque não éramos almas gêmeas, siamesas, não éramos a metade uma da outra nem de laranja alguma. Encenávamos um amor que eu sabia irreal, mas que sentia como se real fosse. E era o melhor. A maneira apertada de berrar nos meus impulsos os seus abraços, era a eloqüência do nosso sentimento de esquinas. E se só nos restasse um dia? E aquela falta de ar, de beijo, e de vergonha na cara? Só os erros num certo momento da vida recompensam acertos futuros. Trair é o prato do dia que se come frio como a vingança. Nem precisou que ela se vingasse em seu nome, a sua transitoriedade na minha vida deu conta de me esbofetear e marcar as mãos que eram suas na minha cara. Eu nunca soube se eu perdi você ou se foi você quem me perdeu. A falta que você me faz é a da lembrança do cheiro de terra molhada que se tem quando não chove, e que a gente julga indispensável só até que as flores trêmulas da primavera exalem de novo as ventanias. Vontade que se tem quando não está perto. Eu nunca mais vi senão a sua sombra na imagem refletida daquilo era você depois de nós, mas que não era você, era o que eu ainda podia ver da aventura que vivemos, dos gestos escancarados nos degraus do teu corpo, e da escada suja do meu prédio.




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Quarta-feira, Novembro 12, 2003


COMPENSAÇÃO

Natural que desertos se descubram oásis, que rios e mares nasçam apartados para que depois se abracem no encontro das águas, e que a minha pouca fome se explique pelo excesso da sua. A lógica da compensação não é bem causal, mas fez a pouca curvatura dos meus pés ir parar toda na cintura. A minha boca tão seca já foi encharcada porque a boca de outra pessoa se ressentia da não umidade. Hoje essa mesma boca é que inunda a aspereza da minha. Minhas mãos estão permanentemente frias porque as mãos de alguém que eu desconheço não se agüentam de calor. Meu chuveiro é a gás porque o do vizinho é elétrico. João colore de branco para que Maria rabisque o preto. Uns furam o dedo num acidente, outros, o umbigo, para o piercing. Meu cheiro é de fêmea porque existe o macho. Meu cheiro é de fêmea porque existe a fêmea. O sol nasce para que se ponha o dia. A lua engravida e o céu aborta estrelas. A dor começa na alegria que se esqueceu de sentir. Lúcifer é a inveja de Deus. O nojo pela barata acaba no amor por si mesmo. Uns sobem, outros descem. Para cada vivo que diz sim, há o seu par de quase oposto não. Inversamente proporcional à matriz.



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Segunda-feira, Novembro 10, 2003




E vem de um riso, o furacão. O mundo é o dos sentidos, lamento informar. Flor se abrindo não contém verbo em gerúndio, tem é cheiro de alma impregnada, com as raízes na terra, mas que sempre embriaga estratos de céu. O significante só brinca de significado; quando ninguém olha, sintagmas e paradigmas perdem a solidariedade estrutural do sentido. Escrutínio cai bem na boca porque estala polissílabas dentro dela, não porque apura meticulosamente alguma coisa. Palavras como escrutínio tendem a ser ranzinzas como velhos (os de espírito), ranhetas, porque quase não saem de casa, quase não tomam sol, nem aquele vento na cara renovador que a gente deveria tomar ao menos uma vez por dia. Palavras de dicionário empoeiram muito mais facilmente e ficam de mau-humor, se zangam, pois são como vovôs tristes abandonados na boca da terceira geração. A gente não deve sair por aí acreditando somente na racionalidade positivista, posto que pessoas carregam sem cessar seu q de magia, e de fabulação. O mesmo vale para conceitos, que são derivações humanas. Nossos referenciais são também míticos, são também mágicos, são dotados da lato sensu da vida. Nem sempre as fontes percorrem o caminho previsto até o sentido. Repara, por exemplo, nos meus olhos: encharcados, indecisos, eles não têm razão. Percebe o tremor das artérias. Atenta para a maneira delicada de explodir o medo, quando alguém mexe n'alguma emoção pouco explorada, e me faz rir desse jeito. Ri para o meu pobre romantismo, pra minha efusão sentimental. Achincalha com meu derramamento desavergonhado, faz troça das minhas expectativas. Eriça os meus pêlos, provoca mesmo! Porque é o meu magma que aflorará à superfície úmida da tua pele. O imaginário suspende com a verossimilhança toda vez que se entendia; toda vez que se assombra; que assume instintos; que deita na relva; que cospe o fogo atônito do verbo, da vida, da raiva; que faz carinho; toda vez que vive e que morre para a materialidade do mundo. Portanto, não acredites tanto no que te dizem, muito menos no que vês.



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Sábado, Novembro 08, 2003




O amor é quando dois corpos, dois velhos corpos, madurados pelo tempo, beijam um ao outro, o mesmo beijo jovem, há décadas. O amor é a largueza do espírito, testado, vivido, que ainda guarda os sintomas da meninice, os rubores da infância. O amor é quando você pula amarelinha, aos cinco, aos dez, e aos oitenta. O amor não tem fronteiras; de tempo, de modo, e de intenções. Guarda-se virgem, como um padre, mas se avizinha com o profano. O amor cabe na palma da mão; ou no espaço curvo do universo. Sorri o último sorriso, como se fosse o primeiro! O amor não se esquece das meias, acarinha o neto; toma de assalto, uma mágoa, uma ofensa, depois chora escondidinho. O amor não renasce, o amor colhe. O amor tropeça na pedra do caminho, retira a pedra, e depois volta com ela, só pra não ferir a paisagem! E para não ofender o rito. Faz seu cocar, com as penas da muda, não maltrata o passarinho - embora brinque de estilingue. É mesmo contraditório e confunde, o amor. É mesmo soberano, e triunfa. Chega, exausto, ao limite da estrada, e não pede carona. Só pelo prazer de andar mais um pouquinho. Nenhum amor se contenta com barulho. Nenhum amor só opera com silêncio. O amor é de muitas, muitas perguntas, e muito poucas respostas. É nu, porque precisa de banho, cheira a talco, e sabe ser prudente. Olha a gente do fundo da dor, e da profundidade do riso. Dorme num fundo de armário, quando não pode estar presente, e acena na foto, que é lembrada na estante. O amor geralmente tem: cristaleira, cuidado, carinho, cabelos brancos (que pinta quando é vaidoso). Prepara o Natal, o domingo, o feriado; mas todo dia se arruma porque, se não me engano, o amor acorda cedo. Toma o sol da tardinha, conversa com os vizinhos, compra pão, tem muita história pra contar. O amor nem sempre acerta porque não aprendeu tudo. Mas já viveu quase, já amou quase. O amor já amou, muito, e também já foi amado.


(para o meu avô)


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Terça-feira, Novembro 04, 2003


Para quem me abraça: todos os meus dedos.
Para quem desalinha cabelos: os pêlos do meu corpo.
Para que me beija: beijo de poro a poro.

O corpo: repouso de fendas abertas.
Os pêlos: todos os meus poros.
Os poros: alma transpirada.

Veneno eficiente do beijo,
Desalinho em dedos,
Quem beija?

Para quem beija: fendas abertas.
Para quem abre: dedos, abraços.
Para quem repousa: o amor.






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Sábado, Novembro 01, 2003




As meninas dos seus olhos são dois alienígenas verdes, dois bebês marcianos que você faz questão de esconder, por isso essa covinha de lua nos arredores da cara. Você ri e bloqueia a passagem da visão, fecha esses olhinhos porque pensa que é um chinês. Fecha olhos, mas abre a porta da boca e ameaça me fazer cair lá dentro. Danado que você é! De tanto eu me atirar, criei um precipício na sua garganta. Seu mundo de vozes é um balbucio ainda, um castelo mal-assombrado; mas você é bonzinho porque deixa passar o líquido e o sólido. Só objeta quando inflama, aí chora pela garganta e pelos olhos que salgam as terras afastadas da bochecha. Viram um mar imenso arrastando ondas grossas. De tanto não ver dentes, fui mordida por eles, dentes não nascidos guardando cão indócil. Seus olhinhos são duas frutas maduras, que eu devoro porque tenho fome. De tão maduros, seus olhinhos estão prestes a cair! Fico com essas duas bolas de gude do tamanho do universo. E que inversos! Tem uma câmara escura dentro deles, no fundo deles. É onde você guarda as pessoas que plantam bananeira. Engraçado que na volta a imagem volta certa! Deve ser muito instigante ter um filtro da cor da esmeralda apalpando a vista. Imagina o efeito do verde sobre a vista? Se bem que, preciosa desse jeito, a pedra verde dos seus olhos já deve ter sido roubada um trilhão de vezes. No peso explodido, no amarelo-pêlo povoando, no balbucio... Na risada de chinês. Nas duas covinhas quase imperceptíveis. Decerto já roubaram o verde desses olhos, que é o mar inteiro e um pouco mais.



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