Quinta-feira, Outubro 30, 2003
O cenário da minha vida começa a ganhar novos ares, diretrizes de movimento. É o primeiro de um longo ato; aberto, paulatino, embora denote uma certa agudeza não branda de coisa consumida pelo medo do ontem, mesclado ao desgaste prévio que é a coragem do hoje. Mas é de uma coragem robusta, quase. Eu reparei que o vento sopra diferente quando a gente plaina só com a imaginação. A altitude das realizações faz toda a diferença, mesmo que não se queira medir tudo a partir do nível do mar. Na hora de contar a história, tem gente que começa pelo meio dela. E dá certo. Mas na hora de vivê-la, não há jeito, existe um ponto de partida, que é sempre a transição do que existia antes para o que começa a existir depois. E tem meios materiais essa transição. Muita gente prefere alinhar o parlamento íntimo ao status quo. É uma opção razoável, claro, sobretudo quando se é permitido optar por alguma coisa nessa vida. Mas há um establishment aqui dentro que não se alinha a nada, que guerreia o tempo todo com a heterogenia do de dentro, que brinca com qualquer mecanismo auto-sustentável e que nunca referenda a palavra eterno. Há caminhos demais nesse mundo para que algum pregoeiro soturno anuncie uma forma que se aplique a todas as formas. Aceitar uma única norma é normatizar a norma, fazer de uma possibilidade, todas as possibilidades. É dormir com a falsa sensação de ter feito a escolha certa, fazer da afloração da vida um álibi perpétuo de si mesma. Pôr um padrão como se põe uma roupa, na pressa de ter de escolher a combinação mais perfeita. Acreditar numa resposta só, para a mesma pergunta, pode alimentar muitas dúvidas, pode ser perigoso demais para as nossas inseguranças. Só que dormir sem elas, sem as nossas interrogações de cabeceira, é que não é nada seguro. Perder a chance de fazer outra pergunta. Conforto vencido é ação, mesmo que a ação consista em subir dez andares até sentir que subiu um. Ou se vai de elevador, ou sobe os pés nas rampas crescentes da auto-superação. Hoje eu precisei de ascensorista, de guindaste, venci a gravidade sem esforço algum. Aquelas rampas são esquadros perfeitos, umas sobre as outras. São leves de se olhar. Eu bem que podia escorrer por elas, os meus ângulos retos, e divisar lá de baixo menos sujeira com que se olha o parapeito de um século, a barra suja de uma calça, um veneno suave de se tomar. Não há tanto esforço olhando aqui de cima, os metros sobre o chão. E no cinza descascado da pele no muro, pelo sol ardido de uma manhã já posta, numa mesa de quarta-feira, a mesa sob qual eu protejo meus pés da inevitável descida, a mesa improvisada onde assino ' ciente de que não há remanejamento ', despejo minhas possibilidades acadêmicas. Aceno para três vagas a serem preenchidas como quem cumprimenta damas há dois séculos daqui. Aprovação que tem nome, sobrenome, pontuação; tem banca examinadora, tem sorrisos afáveis que escondem as poucas chances da formação. E quem nem mesmo chegou ao primeiro andar dessa faculdade, tem outra sorte: a de ambulante. A sorte dele é diferente da minha, que posso optar por duas universidades públicas, que posso abandonar um ano inteiro para retomar o outro, em nome de uma busca tão subjetiva quanto concreta, porque norteia o pensamento objetivo, da mesma maneira que preenche abstratos sentimentos. Eu que assinei estar ciente, não estou ciente de nada. Tenho dez rampas para descer, mas tomarei o elevador porque é mais fácil descer sem pés. Tenho dez dias até a prova que mede a gente de zero a dez. Tem fontes, tem a pauta, tem a apuração da notícia, que passa de dez. Tem o jargão acadêmico, e tem o jornalístico. Tem um modo de dizer aqui fora diferente de dizer aqui dentro. Mas eu renovo a manchete e fica tudo bem. No fundo, eu diria do ambulante que nunca entrou aqui, dissertaria sobre ele, se me pedissem, e sobre o peso subentendido dos meus pés na maciez cimentada de um recomeço.
Quinta-feira, Outubro 23, 2003
Retornar à vida é tão ou mais estafante que sair dela. No entanto, é a única travessia para a qual estive sempre preparada, sem nunca estar pronta. A vida me empurra para dentro da vida, mas poucos sabem o seu significado subjacente. Toda forma de vida vale a pena. Deve ser por isso que a tinta da minha caneta nunca seca, mesmo quando não há mais papel onde pousar tanta escrita. Minha atração pelas formas brutas e estados mais intensos do existir psíquico me enredaram, nesses últimos meses, para os falanstérios insuperáveis da imaginação, sem que eu pudesse fincar pés na realidade. Hoje os pés me calçam, e não eu a eles, e caminham comigo de volta para casa. Ainda descalça, arrisco os primeiros passos sem esquecer que carrego todas as ventanias na bagagem. Mas me atrevo a dizer que ainda persigo moinhos de vento. As asas que me permitiram o vôo são as de Ícaro, e como não houve jeito de pensar noutra alegoria que não a dele, vocês sabem o final da história. Estarão derretidas nas próximas horas, as minhas asas, e quem sabe eu as substitua pelos escarpados nauseantes para os quais subirei, e arrisque um vôo, um salto de pára-quedas, com todas as instruções de uso do verbo sonhar.
***
Dou nota de que até o dia 10 de Novembro (quem sabe um pouco mais) ficarei afastada desse blog para me dedicar a objetivos acadêmicos, podendo aparecer, vez ou outra, caso encontre vestígios de disposição física e mental, para reatar com minhas palavras e dar sinal de vida aos amigos que aqui fiz. A transferência para outra instituição de ensino constitui-se finalidade básica para mim (como é do conhecimento de alguns), embora o processo de seleção, iniciado nos próximos dias, em nada pode ser considerado fatigante, de modo que o tempo que me exijo é, a priori, emocional. Findado a primeira etapa do processo seletivo, volto a ser eu mesma mais o sucesso ou fracasso dos meus novos intentos.
Os amigos que escreverem e-mails, queiram me perdoar caso não venha a respondê-los na prontidão que merecem.
Beijo permissivo na palma da mão de cada um,
Beta
SOLARE
Basta um dia de sol sobre a minha cidade, um dia nublado de sol, para que minhas mãos queiram a leveza da poeira humana que contêm. Basta que eu ouça ¿uma cadência bonita desse samba¿ para que eu saia mundo afora querendo sambar também, embora eu não saiba direito como que é se faz isso, embora eu ache sempre uma maneira meio estranha de expressar com o corpo, o ritmo que a alma tem. As cores são sempre vivas como as flores que ganham o mesmo nome, e as rimas existem para quem as queira rimar. Mesmo desbotada, mesmo sem rima, a poesia da vida é livre para rimar com a imaginação. E se hoje a lua é generosa, se o tempo correu para que adiantassem os relógios, se o sol se despede um pouco mais tarde, se a brisa à beira da praia venta mais do que ontem, se o mundo consiste em menos distorções só porque meus embaçados olhos fizeram questão de se apaziguar com os dois graus de miopia e de astigmatismo que tenho, por que não fazer uso dessa forma bruta e primeva de otimismo para também me apaziguar com o mundo ao redor de mim? Talvez esteja sentindo necessidade de tirar essa auto-referência das minhas costas, tirar um pouco o peso das minhas palavras, para que o peso só pese quando necessário for. Serei então sempre uma esponja e meu substrato será o mundo. Serei o final feliz da história, serei o aplauso atrás das cortinas, serei a atriz, serei o público, serei a faca afiada afiando o verbo, serei os amores correspondidos, serei os olhos da mulher amada, serei a chance de amar. E todos os dias de sol terminam com o mais lindo entardecer, terminam com a esperança das vinte e quatro horas subseqüentes. O corpo é o desfecho da alma, se nela vai a poesia, a história toda é um verso, e o verso embriaga como um vinho, tem dele o cheiro e a sedução. Se o corpo quer dançar, é porque a alma voa. Não sinto uma sede de vida apressada, mas um sentimento ameno, e não neutro de gratidão. Grata pelos dois graus de miopia, porque de cada cena que vejo eu faço uma tela impressionista com os olhos. Tenho, portanto um Monet dentro da retina.
Segunda-feira, Outubro 20, 2003
A ROSA DE FOGO
Em mim faltam réplicas de momentos mais duradouros da existência. Por que digo isso? Porque a ligeireza dos meus absurdos é que sempre me consumiu em eternidade. A concretude brilhou falsa no verniz da minha vida, conservou flácido o tempo. Bastou o findar de uma primeira estação para que a primavera se desfolhasse em trilhas esquecidas da memória. Sempre vaga, dissonante. O que restou da eternidade foi a sensação de desejo comprimido, de criança trancada no quarto pelo castigo dos pais. A julgar pelo tamanho no buraco da fechadura, creio ser impossível não abrir janelas. Não ocupá-las com os estertores vorazes da vontade, do querer sobre-humano e da realização do irreal. Premissa breve a que se pretende eterna. É do confronto do eterno e do breve que se compõe a completa história. Do que se alcança nas linhas corridas da imaginação e do que prende o tempo na memória, é que se retira o caminho do meio, não sem razão, o caminho da vida. A do menino trancado no quarto ajeitando-se no horizonte da conduta materna, sempre embevecido com o olhar do sol. A da mãe zelosa que se esquece longe do espelho e vive dos anos da dedicação de si mesma. Também a do animal abocanhado pelo desejo de saciedade, presa permanente do instinto passageiro da fome. Não há caminho onde possa se pensar fora dessa dinâmica de devires e brevidades. Atendo ao chamado da razão e eis que a razão do chamado dissipa-se frente ao meu desejo de saciedade. Vivendo da razão o homem sabe a história sem a história. Vivendo da razão e do medo dos impulsos, dos estertores, e das reticências que toda paixão aglutina pra si, eu vivi até hoje fora, fora de mim. Historiadora de mim. Criadora de fábulas que nem à mais tenra das crianças comoveu. Instantes de exceção os de comunhão com o sol. Pele exposta, multiplicada pelo sal e pelas marés do verso. Poucos os estados de exceção. Ambivalência, vertigem, entrega. Não houve tempo para os símbolos da criação, para os risos, para os arquétipos... Não houve tempo! Meu inteiro mundo foi um hiato despedaçado da espera. Sempre se valeu dela. Não houve tempo. Para a dramaturgia da vida. Para a lenda. Para a rosa de fogo. Não houve tempo para a tragédia da vida.
Domingo, Outubro 19, 2003
Eterno é tudo aquilo que dura
uma fração de segundo,
mas com tamanha intensidade
que se petrifica,
e nenhuma força
jamais o resgata.
(Carlos Drummond de Andrade)
Três ao todo. Eu, tu, e o mistério que abraça os abraços. Eu vejo a lembrança daquele dia, e dela faço um cobertor de olhos para me ver livre do frio que é um instante esquecido. A saudade cobre meia página de pele margeada e adormecida, remói dois terços da cinta liga que eu comprei pra te ligar em mim. Outro terço é o que eu rezo. Para que a volta nunca seja partida, e para que o cheiro daquele instante alcance toda a orla dos olhos que são mares acastanhados, mares da noite que se debruçou sobre nós. O manto da memória é uma colcha apinhada de retalhos que são imagens da saudade. Eu me esquivo à véspera do primeiro encontro, e decido lembrar-te a dois dias dali. Eu te filmo com minha película pré-nupcial. Os irmãos Lumière sabem que aquela é a primeira exibição pública do nosso filme de amor. A imagem do movimento de nós. O homem que copiava a nossa cena, e a nossa cena que copiava a aventura do homem. O mistério de um abraço que embaça a tela. O beijo sufocado pelo projetor. Então me lembro do beijo de Totó em Cinema Paradiso, meu filme preferido, e do nosso beijo que se eternizou em minha memória. Um cineasta de sucesso retorna à sua cidade-natal quando é avisado da morte de um grande amigo de seu passado, que o ajudou a se apaixonar pelo cinema. Um cineasta que vive dentro de mim retorna à cidade-natal quando é avisado da morte de um instante. A lembrança é o grande amigo do cineasta que vive dentro de mim e que é apaixonado por Casablanca. Um grande amigo do meu passado, que me ajudou um dia a me apaixonar por ti. Eu vejo a lembrança daquele dia, enquanto os dedos dessa lembrança se enroscam ao meu corpo, como quando a nossa ânsia exigiu um primeiro beijo dentro do cinema. A pipoca que não comemos estourando sob os abraços fervidos da espera. Meses de espera até que eu decidisse aprumar o roteiro dessa história de amor...
We'll Always Have Paris!
Quinta-feira, Outubro 16, 2003
Ama-dor(a)
' Meu mundo você é quem faz
Música letra e dança
Tudo em você é fullgás
Tudo você é quem lança
Lança mais e mais... '
Estou cansada de negar o meu querer, viver apartada de mim; e dos meus impulsos. Cansada do meu bom senso, da minha covardia prévia, de tudo o que me faz menos. Minha saudade é do que não foi e do que virá. Da tempestade ingênua que eu vivi naquele carnaval. E foi bom, pleno. De erros e de acertos. Fui incongruente, inconseqüente...e isso me fez bem! Ganhei por um certo tempo. Depois eu tive que aprender a viver sem ela. Eu aprendi a viver sem tantos outros que passaram em minha vida. E me aniquilaram e me cortaram ao meio. Tive que conviver com todo tipo de dor que a gente aprende a conviver com o tempo. A dor de ser triste, e a de ser alegre. Dor. Essa palavra é a minha puta mais santa porque eu durmo com ela todas as noites, e pago o preço caro da minha solidão. Eu e a minha ilha. Meus gestos pensados. Aquela vontade louca de chegar até você, com a cara mais lavada do mundo, e dizer: ' eu vou te arrancar um beijo '. Pedir autorização pra violência. Pra daí a pouco, meses após, saber que nada foi de verdade. Eu vivo a crise da possibilidade. Sou matemática dos sentimentos e calculo em decimais as nossas covardias. Eu me destituo da promessa de acertar e caio na vala infecta, passional, sangue correndo pelas pernas, virando instinto dentro de mil querubins. Aí eu me lembro daquela outra tarde que eu corri com você pelas areias da praia, completamente nua, sem saber que nosso futuro morreria ali. Isso porque foi o tempo mais belo do meu amor por alguém. O outro foi desajuste. O outro? Inverdade. E só bem depois o amor aconteceria. Abriria suas crateras, emergindo a lava, a larva de nós. Vulcão correndo oceano. ' Amo tanto que de tanto amar acho que ela é bonita '. Mas não quero esse amor em mim! Não esse! Quando se ama alguém como eu amo, é tanto amor que a gente esquece que ama. E não ama mais. Ama-dor. Ama a promessa. Ama o zigoto do amor. É tanta covardia e amor misturados que a dor de amar alguém vira coisa bela dentro da gente. Incendeia a gente. Cadencia verbo; vira poesia. Passei a escrever depois daquilo tudo que inundou com a cerveja que bebemos. Passei a inventar palavras para decifrá-la e diminuir a dor da certeza de amar o que não é meu dentro de mim. Mas não foi isso o que me fez triste. O que me matou. Porque eu fui a coisa mais bela depois desse amor. Doeu, já mais tarde, quando veio outro amor a me fazer esquecer o primeiro. Carnaval, tempestade ingênua vivida no princípio dos tempos. Encontrei você que a encontrou antes de me encontrar. Encontrei-a para, daí a pouco, encontrá-la. O amor mais potente, o que me fez esquecer... a gramática, do sexo... quem é que sente? O amor. Depois dele... eu, você. Ela. No palco, acabou o show, telefone no rascunho. Ela. Me liga. Diz. Que a ama. Me apresenta a você. Querer no querer. Me corta, me assina. Você me ensina. Marina Lima.
O resto é: Traição.
' Só vou te contar um segredo
Não nada nada de mau nos alcança
Pois tendo você meu brinquedo
Nada machuca nem cansa
Então venha me dizer o que será
Da minha vida sem você
Noites de frio dia não há
E um mundo estranho pra me segurar
Então onde quer que você vá é lá
Que eu vou estar amor esperto
Tão bom te amar
E tudo de lindo que eu faço
Vem com você vem feliz
Você me abre seus braços
E a gente faz um país '.
Fullgás - Marina Lima
(Em 18 de Junho de 2003).
Nota de rodapé: - plenonasmo mnemônico, ou, falso silogismo - Santo Agostinho dizia: quem ama, canta. E quem canta, reza duas vezes. O que acontece aos relembram a lembrança? Lembrar é já reviver o ido, relembrar, seria, então, viver mais três vezes? E quem ama, quantas vezes vive mais? Vive?
Terça-feira, Outubro 14, 2003
À um mal entendido conceitual,
ao impulsivo gesto de conceder generosidade,
ou,
À um afeto afetado:
A multiplicidade temporal de conceitos me assusta. É uma avalanche atropelando a mim. A pressa de dizer corre como um rio, cortando à faca, as razões; trouxas razões. A trouxa que a lavadeira leva consigo em razão de levar sustento, na margem do rio, a lavadeira lava: monotonia, pressa, filhos, veredicto. É no veredicto o pecado acontecido. É original, como pomo carnoso na costela de Adão. Eva recolhendo o brio.
Então Deus expulsou os homens porque os homens sucumbiram? Em razão de que razão acredito?
Conceitos são como temporais inundando a terra suspensa do nunca. A isso dou nome de nuvem porque objetivamente são nuvens e chovem. E chovemos todos, com nossas superfícies de vãs crenças, recolhendo a matéria humana com que concretizamos pensamentos. A isso dou nome: idéia, pensamento; por meio de palavras, acontecido. Por meio de gestos, idéia que eu berro.
A apreciação que eu faço de mim e minhas máximas não me permite reproduzir-me em um só acabamento conceitual. Eu não me encaixo em paradigmas porque eu sou o paradigma, quando penso em um. Eu não sou nenhum.
A heterogenia que a vida me impinge, por meio de gestos, afetos afetados, letras que eu leio, aqui, lá ou acolá, somatiza na minha enxaqueca seu tédio de ser múltiplo. É um maravilhamento ser de tudo, mas às vezes cansa por seu nada dizer. O meu dito é a práxis do dito. Dizer pra mim é fazer da escrita, um rito. Por isso cansa, ela, a escrita.
Sou verborragia acontecendo plácida por sobre os oceanos. Feérica sensação de se ser. Embora não sendo, tudo me é. E essa ilusão mórbida de me ser me leva a ritos. Eu não posso deixar de dizer, na minha pretensão de ser lida. A culpa não é de ninguém, nem mesmo minha.
Vampirismo? Mas essa avidez demasiada só pode ser minha! Ninguém mais me concede o brio. O brio está comigo. Portanto ninguém mais, só a Eva recolhida do paraíso do inferno sabe porque tanta gente se confunde. E o disse-me-disse não tem razão de dizer. Por isso eu esqueço o dito.
Além do mais, é conceito. Como eu te disse: os animais, nós somos um, parasitam uns aos outros, e isso muitas vezes traz benefícios a uma espécie.
Eu sou a primeira a parasitar. Eu parasito a literatura. Ela me faz bem. Eu não sei do seu contrário. Mas ela me faz. Eu retribuo com o que posso. Com a peçonha dos meus conceitos previamente adquiridos.
Sábado, Outubro 11, 2003
A semente, enfim, renega a terra, subestima a lavoura, devora o alimento donde repousam bocas e entressafras. Diz-se natural, o cuidado com a terra. Poupá-la o dispêndio de abrigar, uma vez mais, a raiz e a vida.
Dos tempos da brotação instantânea, em que não se reparava o hiato entre uma safra e outra, só sobrou o alcance. Produzir era o que havia de mais honesto na existência. Quando não, resistência. Porque viver significava chuva inundando a plantação, na medida sempre vigorosa da vontade. Umidade procedendo generosa, sempre.
Bastava acordar intensa para comandar ventanias. Talvez minhas pupilas dilatassem, não sei bem, nessa sombra aclarada que era o ver. Eu via por dentro. Como se dependesse unicamente dos olhos, ver.
Às vezes é preciso que se repense o lavradio. Lavrar, sulcar a terra. Arar de um modo diferente. Às vezes é preciso que se repense verões, períodos de escassezes. Preparar a terra, adubá-la; eis então a meta. E será sempre um jeito novo de sorrir, com as mãos, lançando pelos olhos as sementes do ver. Essa semente que é o ver. Essa folhagem entorpecida. Como se dependesse unicamente de nós...
As respostas que não virão do teu aval, as mãos fincadas na terra, férteis no abismo, os astros que sideram ignorando a tua presença, o registro da presença que sai de ti; o abismo anelídeo da minhoca, cravando intimidades na terra; como se dependesse unicamente de nós, ser.
A sobra de um visgo, deleite de sonho, temperatura de azedo, revoada de mil, pássaros de estio, poeira de serpente, rastro de andar só.
Essa vida que remexe com a gente, que devora entre um tormento e outro, as entressafras, os destinos da plantação. Mãos, enegrecidas, de olhos que devoram a fome, a terra, o homem... e as sementes todas, adormecidas.
Quarta-feira, Outubro 08, 2003
Alheia memória
Então disseram assim, nalgum lugar que eu li, e que agora não importa mais:
Cuide bem das memórias alheias. São apenas memórias, mas como doem!
E o alheio se fez sofrido em mim. Alguém surpreso, um tanto feliz, revelou a outrem suas memórias de cabeceira. Algum morador de Minas, minerador de emoções, dor muito mineira das Minas que eu conheço bem. E perguntou:
Já morou lá ou lá perto? Sobretudo na ingênua década de 60, quando nos subia um calorão, quando víamos nossas musas saindo do Sacré-Coeur, saias dobradas na cintura para enganar as freiras que as exigiam abaixo do joelho? Ah! Que reminiscências voltam à simples menção da música que Tavito fez para marcar toda uma geração de belorizontinos do bairro da Serra...
E sem que eu quisesse ou estivesse envolvida na história, eu me envolvi. E sem que a ternura me pousasse nos lábios, ela pousou. E sem que a saudade roesse unhas, desgastasse o tempo de espera, numa certa rua em que provavelmente aquele habitante fez lembrar seu passado, recuperei o meu. Permitir-se viver num alcance de terras fincadas a tantas léguas daqui, permitir que o nunca vivido, o nunca visto, abalroe com o presente, sua dimensão de fotografias e recortes, a cristaleira vencendo o tempo, capacidade de transcendência não maior que o alcance da projeção: eis o mnêmico vivendo em ti.
Cuide bem da memória alheia, porque um dia há de ser tua também. Cuide bem daquilo que não é teu. As posses abandonam o homem, mas o homem não se abandona assim tão fácil não.
E a sensação era de continuar sendo o que não consigo definir para não ser e não deixar de ser o que eu ainda não sei...
Quando se fincam certas distâncias, a bandeira da vida tremula como conquista de bandeirante atrevido, atravessando oestes densos de mata incapaz de se abrir.
Alguns deles, jamais se abrirão. Diferentemente dos olhos, da boca, e da memória. A memória é um poço finito, mas é tão funda quanto a terra toda, e cavando com precisão, haverás de chegar a algum lugar.
Segunda-feira, Outubro 06, 2003
O princípio e o fim
Era o princípio e o fim. As meninas sabiam muito bem. Por isso desmoronavam em risos frouxos, mandíbulas acesas, com uns olhos de sim. E como quem diz não ao tempo, cresciam para além de si, viravam umas donzelas de curvas, envoltas em tecidos novos da sensação. As emoções, muito mais vigorosas, almas suscetíveis, incandescentes. Cheiro de flor se abrindo, prenúncio de vida, a natureza ardendo, reunindo, se reconhecendo. Tempos de crença, morenos, o sol reconstruindo os instintos, as saias subindo, olhos na contramão. E pernas-pra-que-te-quero. Te quero. Eu te quero. Saudação dos ventos, almas rasgadas de menina, a frase em ebulição: eu te quero, eu te quero. E no meio de mãos que se apertam, pernas que se esfregam, seios à boca, novos e crus, o amor nascia diferente; numa e noutra. Os rapazes, as meninas, e as duas moças. Sábado, domingo e feriado. O pátio da escola, o vestiário. Tudo novo, tudo igual. Sem tirar e nem pôr. Acontecendo como coisa única, porém, repetida. Conversa estendida por horas, e um medo, e uma calma. Porque se sabiam estranhas, elas duas; mas a natureza fôra tão boa com elas! E as amigas, os rapazes, os beijos não dados. Os mais saborosos. Os namorados que iam, e que vinham; e as duas ali. No tempo em que se cresce, razão que desaparece. Cortinas ventando, tarde fria, riso meio choro, o medo do novo. E ninguém mais do que elas entendiam o amor. Ninguém mais que as meninas todas, e todos os descaminhos perfeitos; todos os tumultos. Nasciam as diferenças. As preferências. Presunções. Erros e acertos. E as duas ali, que se olhavam, que se entendiam, não se falavam. Os risos menos frouxos, emoções supostas, cálculos mais complexos, a infância crescendo. Porque a vida ganhava regras, regimentos, e o estatuto do bom senso. E não era pior que antes, era diferente. Como cada idiossincrasia adormecida anos atrás. Compartilhada no santuário da existência; a fé inabalável. Antes era quase tudo igual. Menino e menina. Diferentes? Só na imaginação. Dormiam. Debaixo das mesmas estrelas, corpo de um, meio igual, meio dois. E os banhos de criança, puro cloro, mas que pareciam cristais. Dois meninos. Duas meninas. Menino e menina. Não fazia a menor diferença. Não porque eram anjos, ou exatamente os mesmos. Talvez porque a caverna dentro do peito de cada um ainda não se abriria naquele instante. Ou porque eram o que não são hoje: instinto de feto, uns bichos bons e sábios, que se viam, e que se amavam. Não que não se amem mais. Amam diferente. Amam mais leões, resguardados, mais ciosos. Viram armadura, se enjaulam, se perdem, se procuram... Dormem debaixo das mesmas estrelas, mas acham muito engraçado que se perca tempo com essas bagatelas sentimentais. Ou então, tortuosos e sombrios, vivem de procurar vestígios do ontem, daqueles tempos morenos, e se queixam e se lamentam por não serem mais o que eram. E eram tão belos! Como hoje o são. As meninas de curvas, que se renovam, únicas, na natureza de devires e interpretações. E que sentem, duas a duas; as meninas frágeis, as diferentes, as que se amam, entre si, após a outra, mais, menos, sem razão. Os meninos-candeeiro, com suas fendas expostas, a natureza erigindo, esculpindo a sensação. Tudo muito natural, e óbvio. Tudo tão novo. Tão igual. Os rapazes, as meninas, e as duas moças. Sábado, domingo e feriado. O pátio da escola, o vestiário. E no meio de mãos que se apertam, pernas que se esfregam, seios à boca, novos e crus, o amor nascia diferente; numa e noutra. Saudação dos ventos, almas rasgadas de menina, a frase em ebulição: eu te quero, eu te quero. E pernas-pra-que-te-quero. Tempos de crença, morenos, o sol reconstruindo os instintos, as saias subindo, olhos na contramão. Cheiro de flor se abrindo, prenúncio de vida, a natureza ardendo, reunindo, se reconhecendo. E como quem diz não ao tempo, cresciam para além de si, viravam umas donzelas de curvas, envoltas em tecidos novos da sensação. Por isso desmoronavam em risos frouxos, mandíbulas acesas, com uns olhos de sim. As meninas sabiam muito bem. Era o princípio, e era o fim.
Sábado, Outubro 04, 2003
Uma parte de mim impregna. A outra é impregnada. Uma parte é composta de estigmas. Uma sociedade também. O que são marcas na vida de um homem? Todo século é um clarão silenciado da manhã, acenando o novo, com o velho. Há condescendências que são ritos de passagem. A comunicação é a eloqüência de um monólogo ininterrupto entre supostos interlocutores. Aquilo que toca também é tocado; só que ninguém toca. A subjetividade é o imponderável nascendo dentro, arregimentando lógicas; é a teoria pressuposta em valores retorcidos. Porque toda subjetividade sangra os matizes da ilusão.
Sexta-feira, Outubro 03, 2003
Eu me ocupo das pequenas sensações. Andar de rua em rua procurando a criança suja que me rouba no sinal, carregar nos olhos a poeira daquela criança. Pegar um ônibus em que a trocadora me diz o olá mais doce da minha vida. Empurro a memória coração adentro, ardendo, pulsando no batimento de ser. Quando eu saio de casa para ver os olhos dos outros, eu vejo a mim mesma. Carrego um sem número de idéias e eus retirados de sombras interiores, desejos possuídos, emoções que me adestram na loucura do pensar. Eu penso, penso, penso! Penso que penso. Sou um elefante de circo. Só que magro. Desengonçado. Não caibo em lugar algum. Cansada de repetir noite após noite o mesmo ritual que o domador de cérebros, esse Deus das sensações, imputou-me ao pensar, eu virei uma mente num corpo. Esguio de uma tristeza longínqua e profunda. Eu penso a respiração. Eu penso o piscar dos olhos. Eu penso o toque, o beijo. Eu penso o que como. Penso e mastigo. Rumino a batata, a infância, e o amor. Eu olho para dentro dos meus olhos e vejo um castanho velho, uma retina de história não vivida. Lanço a semente ao orvalho da única flor que em mim germinou: a poesia! Acaricio a terra do meu corpo, procurando algum vestígio de mim. Eis que encontro um soneto e uma rima de umbigo. Despetalo o lírio inútil pousado nas linhas das minhas mãos. Palavra de um gesto que se calou. Torneira inquieta escorrendo mentiras, mentiras e ilusões. O afastamento e a sobrevivência. Pensar-se só para sempre. Não querer ser dois já sendo infinita. Subir na árvore mais frondosa que a minha covardia permitiu ousar. Daqui de cima eu vejo o alto da sensação. Ando mesmo achando que as minhas pequenas sensações são de uma covardia que quase me alegram. Porque eu sou o medo, eu sou a dúvida, e toda espécie de deliberação. Quando saio de casa para ver a mim mesma nos olhos tristes do outro, diviso o mendigo que disputa comigo uma existência no mundo. Eu também me refestelo da indigência que aquela alma angariou pra si. Sujo minha vida com a limpeza do meu ego. Com a minha ternura. Com o doce do meu mel. Enquanto que a criança suja do sinal disputa comigo uma existência no mundo. É de uma feiúra das mais belas que já vi! Não traz amargores ou dúvidas. Não se decepciona. Porque já não sonha mais. Será que um dia chegou a sonhar, como eu? Será que eu um dia ela já se vendeu? O que será que ela pensa quando me olha assim? Quando me machuca e me rouba assim? Por que me olha com um olhar divino e abençoado? Por que não me julga e não teme? Me recorta, me despedaça. Me lava na sujeira do seu olhar. Me destila do veneno da vida, decrépita, sem o veneno de que se imerge. É feia, é pura, é a coisa mais intensamente verdadeira que já vi. A feiúra daquela criança. A sujeira do seu olhar. O veneno da vida. A tristeza e a alegria de sonhar. Desistir, por fim. Resistir? Se for capaz. Aquela criança ensaia o recomeço do meu fim. Me sorri e me afaga. Mas me rouba o tênis, o relógio...e o coração.

Esta obra está licenciada sob uma Licença
Creative Commons.
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Roberta Tostes Daniel:
Carioca de nascimento, mineira de paixão, cabofriense por uns nove anos.
Nascida em 24/12/1981, sob o signo de capricórnio, lua não sei de que,
e ascendente em áries.
Filha de Marisa Tostes e Guilherme Daniel, carrega nas veias menos o sangue
de filha que a herança emocional dos pais. Sabe-se que Guilherme foi poeta,
radialista e homem bonito... e que faleceu em 1987.
À mãe, coube a tarefa de cuidar de seus dois filhos e amá-los de maneira
incondicional. Ah, sim! a menina Roberta, cognominada desde cedo Beta,
tem um irmão mais velho que adora rir bem alto e fazer poesia: Teofilo
que, como o próprio nome indica, deve ser amigo íntimo de Deus.
Sabe-se ainda que Roberta nasceu fadada às letras, e que delas retira
seu frescor, e também seu pranto.
Adora longos passeios de bicicleta, fim de tarde, declarações de amor,
pipoca, só com cinema, e, claro, os poemas de Manoel de Barros. Seus livros
preferidos são os de Clarice Lispector, Raduan Nassar e Fernando Pessoa.
Anda querendo ampliar sua bagagem literária porque sabe que leu muito
pouco até hoje. Vive pelas letras. Suas e alheias. Metade dela é corpo,
a outra, é palavra.
Sua música preferida é a do momento. Quer aprender todas as línguas; ser passarinho, pelo menos por um dia;
ver seu rosto sem precisar de espelho; ler tudo o que já foi escrito até
hoje; conhecer Maria Madalena, e outras personalidades bíblicas.
Se tiver
um filho dará a ele o nome do pai. Se for mulher, será bailarina. Não
pretende se casar.
Tem intenções artísticas não moldadas, como suas palavras, que não se
emolduram em ornato algum. Gosta do fascínio que o cinema lhe exerce.
Não sabe dançar. Mas dança. Não sabe cantar. Mas canta, ainda que no chuveiro.
Amou sempre menos do que foi amada. Exerce uma espiritualidade própria,
mas não tem religião. Foi fortemente influenciada pelo espiritismo. Conhecer
Paris é uma de suas finalidades óbvias.
É propensa à solidão e à melancolia.
É propensa ao amor.

"O seu mais leve olhar
vai me fazer, facilmente,desabrochar
apesar de eu ter me fechado
como um punho cerrado,
você me abre sempre pétala por pétala
como a Primavera abre
(tocando de leve, misteriosamente)
sua primeira rosa".
Cummings
Canção da mirada secreta
Foram-se os amores que tive
ou me tiveram. Partiram
num cortejo silencioso e iluminado.
A solidão me ensina
a não acreditar na morte
nem demais na vida: cultivo
segredos num jardim
onde estamos eu, os sonhos idos,
os velhos amores e os seus recados,
e os olhos deles que ainda brilham
como pedras de cor entre as raizes.
Lya Luft
"Poeta é um ente que lambe as
palavras e depois se alucina".
Manoel de Barros

"Um livro tem
palavras
que fazem sonhos"
Joana Cruz (3 anos)

Flores Do Mais
Devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
Ana Cristina César

"A vida não é entendível"
Guimarães Rosa
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