texto de Manoel de Barros

Terça-feira, Setembro 30, 2003


Nu espelho



Confronto o espelho, sorrindo. Dissimulando o medo onde o medo está. Gioconda. No riso. No espelho: momento dito. Tudo o que poderia dizer: dito. Tudo o que poderia sentir... Há um entrave no meio dos dois: eu, e o dito. Há um entrave. Caimento que nem o cabelo dá. Respostas que não virão mais. Acelera o esquerdo. Alguém gritando no peito: calma! É o grito de beiradas. Sorri em contorno. E o medo de não dizer mais? Não digo. E o medo de não...? Alegorias me vestem. Não me vestem mais. Concreta. Mente abstrata. Confronto: o outro lado do espelho. O mundo de lá pra cá. Como quando se tenta dizer no espelho os dizeres dum papel. Inversamente dito. Argumento vigoroso perdeu seu vigor. Olhos. Antes brasa, querendo amansar. Abro: há cicatriz no espelho. Despregando moça a pele. Palavras. Num poro de sorriso atônito. Num prisma de sorriso dito. Tudo dito. Num prisma de um só prisma: meu prisma. É como negar à andorinha a realidade do vôo. É como amansar o coração. Houve tantas formas de se dizer: e eu disse. Esse choro aterrado ao riso? A coisa querendo dizer o dito. Eu dizendo veemências. Eu: substantivo o adjetivo. Eu: objeto. Eu indireto nos meus olhos. Preposição, caindo. Momento dito. Larga as avenidas do meu verbo! O medo, sorrindo. É solta a borda da cara. Três dias sem sorrir. Três nuvens se despindo. Três andorinhas fazendo vôo. Três formas de dizer: e eu digo. Não! Preciso cortar a raiz desse riso. Sim! Como quando se arranca o siso. Talvez! A Gioconda tem medo do riso? E o medo de perder o siso? A palavra humana é humana demais. A dor humana. É humana demais! Sorriso humano. A palavra humana é escassa para todo o dito. E o riso? A palavra dos olhos libera o riso. A palavra da boca chora. Verbaliza instintos. Eu não me agüento e digo: eu digo?



Segunda-feira, Setembro 29, 2003


No dia em que o amor virou alecrim



Quinta feira passou. Resta, entretanto, um cheiro absurdo de alecrim correndo entre meus dedos. Meu corpo inteiro, cúmplice do mesmo anseio, exala sálvia e alecrim.

Perdura a sensação desconcertante do banho. O alívio extremado e um medo de amar. Riso pairando nas folhas e no corpo do Outono. A espuma escorrida na fresta dos olhos. Sabonete que virou lágrima.

Sim, foi ontem que a encomenda chegou. Cheirava a alecrim. Meu cheiro, minha promessa. Bálsamo. Meu presente e minha devoção.

Abri a caixa. O desenho dos sonhos embolado em papéis de presente. Sabonetes, risos, cartas de consolação. Aquela demonstração de afeto me atingiu por dentro. No meio da mais desajeitada emoção.

Enquanto despia a embalagem, com muito jeito para não constrangê - la, pensei no remetente. Com tanto carinho que chegou a doer! Tentei disfarçar, mas meu riso meio choro não soube me esconder.

Toquei no envelope como se toca uma face enamorada. Dentro, repousavam meus destinos mais secretos. Minhas íntimas letras, tão idiossincráticas letras, grafadas nas letras de um anjo.

Afeto, marcador de livro, madrugadas compartilhadas. Bilhete dos sonhos, bloco de anotações e um cd do Simply Red.

Misturado a tudo isso, sabonetes, muitos sabonetes. Sabonete em barra, sabonete em espuma... Em sensação. Castanha-do-Pará, e, claro, Sálvia e Alecrim. Um cd de Ella Fitzgerald e outras delicadezas pro meu irmão.

Como se não bastasse a cumplicidade de nossas almas, já de longe meu maior regalo, decidiu-me o anjo, presentear-me com o perfume, essência das intenções.
E o castanho dos olhos dançava feito criança ao som de For Your Babies:


I dont believe in many things,
But in you I do.


O perfume que me acompanharia por horas a fio espalhou-se pela casa, revelando os desejos mais íntimos que uma caixa como aquela pode, em si, conter.

Meu humor sereno, percorrido de sonhos matinais, ainda se espreguiçava de sono logo que Os Correios resolveram me surpreender.

Acordei com o cheiro do alecrim, e, com ele, fui dormir. Me banhei, me vesti e fui ao cinema acompanhada dele. Assisti Frida, e no meio da história, notei que o casaco que me abraçava, que me protegia do frio do ar condicionado e das não condicionadas carências do meu querer ser, também cheirava a alecrim.
No corpo inteiro, a mesma meta e a mesma chegada. Um mesmo cheiro.
Morada das recordações. Dos sonhos e da necessidade de amar.

(E quando esse sonho nasce de uma tarde fria, como a que se fez apresentar no Rio, chuva do meu ontem; nasce de um riso embrulhado pra presente, envolvido das alegrias que só os gestos mais simples sabem produzir; quando a meta de mergulhar no outro dá sinais evidentes de sua procriação; quando o amor é também amizade, desejo de estar perto, sempre junto, estar sempre mais; quando, enfim, em pleno Outono, tudo parece exalar sálvia e alecrim, haverá, decerto, amor e felicidade eternas...).





(Em 11 de Abril de 2003. De súbito, lembrei-me desse texto, enquanto assistia à edição - posso chamar assim? -, feita pela Rede Globo, do show do Simple Red, no BMF, Brasilia Music Festival. Lembrei-me desse 11 de Abril, e tudo o que veio com ele, inclusive a música For your babies, que não parei mais de ouvir).



Sábado, Setembro 27, 2003


AS MONTANHAS DO EU



Crescemos rápido como casuarinas naquele sol de terra quente em que vivíamos. Não criamos muitos ornamentos; fomos plantas da terra seca. Só que lambuzamos em pedra-sabão a nossa umidade de escultura; e de escultor. Tessitura seca dentro do céu da boca.

Houve oásis nas horas de aconchego. Um par de orelhas disposto a virar brinco. Sem ourives, nossas jóias dinamitaram. Um par de bocas disposto a virar boca. E monte de mãos acenando o adeus.

Na vida há duas espécies de abandono. Poder-se-ia dizer: real e imaginário. O que abandona, e o que é abandonado.

Há leis que não mudam sem que haja uma remodelação dos céus. Há devires e deveres. As atribulações não começam no corpo.

Escalamos montanhas. Ilhas sob a terra firme do nunca. Arquipélagos que éramos, agrupados n´algum seco de oceano. Diferentes tamanhos e formatos. Primeiro Ato: As Montanhas do Eu.

Um nome sugestivo para aquele bando de casuarinas estufadas. Decalcadas, peça a peça, nas vestes que não nos serviam mais. A tessitura quente dentro do céu da boca. Um véu recolhendo os instintos. Eu servia ateu Deus.

Ensaios na sacristia da alma. Poucas realizações, mas muito talento para amar.

Aos poucos, aprendíamos tanto mais o fracasso que o abraço do aplauso. Havia muita divisão compartilhada, e um desejo triplo de sermos eu, você, nós.

A escalada é íngreme, sem tréguas para o corpo em que se cultiva o brotar de casuarinas, estátuas em pedra-sabão, umas poucas esculturas nascendo urgentes, personagens tecidos de umidade-lágrima.

A vida é um anfiteatro, úmido, com arquibancadas, e no centro, uma erosão, para espetáculos públicos, combates de feras, ou de gladiadores; jogos e representações. Oval ou circular, a vida é muito mais que verbete de dicionário. A vida não é biológica. A vida é teatral.

Com direito a leão faminto. Com direito a cristão. Que ponham fogo em Roma! Que a romaria cesse. Que as feras se desenjaulem, todas, porque são dóceis na mão do horror.

Venham pro palco, as aflições. Tolas. Que eu recomece, de novo, outra vez. Aquele instinto de feto de que eu me persuadi a abortar. Imberbe capacidade de ser gente, um rosto púbere, um ventre branco, erodido de plasma poético. Erodido de montanhas, montanhoso, montês.

Eu tinha 15 anos e me apresentei para uma platéia que esperava o que eu fui. Éramos coesos de alma, e mesmo na separação, havia um sol vasto entre nós. Era ele. Se pedíssemos para o vento parar, ele parava. Se quiséssemos o vôo, eis o planar no meio dos céus! Ele, o único responsável pelo Religare, grupo de duas ou três peças teatrais, religação de entranhas; tudo muito amador, tudo muito ingênuo e bem posto, sem que eu soubesse, olhei o mundo com os olhos dele.

Nenhuma representação de atriz. Só na vida. Houve no palco o fascínio de testar limites, apreensões. À ribalta de um frenesi. Que ignorância de mim! Palco, coxia, um vão de espera. Fora dali representei o amor.

Era amor. Só por ele o meu ódio, a minha pouca fé. Que contradição à beira do mundo! Precipícios escalados, dupla de um, bússola sem norte, pólo no Equador.

Havia uma tarefa e eu cumpri. Apreender um modo de ser e estar no mundo. Que diferença fez se foram duas ou três as peças que encenei?

Acho que fechei os olhos num adeus. O coração veio depois.

Além e só, as montanhas removeram aquela gente que eu acreditava minha; espaço, sonho, e toda relva atrás da cortina.

Secaram os pântanos, planaltos desceram; e o que sobrou? O que fomos quando deixamos de ser aquela agonia de espaços, e de abraços? Sobramos, uns dentro dos outros, alguns um pouco por fora. Demorou até que eu dissesse adeus.

No fim da peça eu entrei, uma vez mais, vi o rosto do filho de Deus. Eu, que beijara o Seu filho, o ator, tantas vezes! Eu, que tinha uma cara de Madalena arrependida! e de fato, eu haveria de me arrepender depois - hoje. Eu fui correndo contar para os outros o milagre da ressurreição; eu chorava de verdade, por alguma espécie de transtorno com a luz que eu via, com o século que eu vivia; era uma espécie de ressurreição sem volta.

Ele foi subindo, subindo.

Não criamos muitos ornamentos; fomos plantas da terra seca. Um par de orelhas disposto a virar brinco. O que abandona, e o que é abandonado. Muito talento para amar; umas poucas esculturas nascendo urgentes. Montanha, montanhoso, montês.

Subiu tão alto, que na montanha em que fiquei, restaram somente: eu, e a desinteira humanidade.



(Uma recordação do que ele me trouxe - uma recordação dos tempos em que representei o papel de atriz. As Montanhas do Eu, depois, o que mais, o que veio depois? Uma recordação. Do que fui eu. Do que fui hoje. Por ele, e por todos nós).



Quarta-feira, Setembro 24, 2003


É hora



É hora, é hora. Árdua, custosa. Difícil a noite nesta casa. Sob pensamentos repousam delírios. Às onze despertam da mansidão açucena; na boca um lacre custoso de abrir. Quase como uma emboscada. Os minutos derradeiros deste dia. Prepara a carabina porque o homem há de passar. Mantém o seco dos olhos; mas sob frinchas, fendas e pernas faz escorrer a meretriz o líquido da noite. Escorre tão branco quanto o leite do sono. Enegrecido no véu das horas. Basta que o cortiço acene com esse sono branco, movediço por entre as fronhas, cortinas; basta que se apaguem algumas velas; para que a noite derreta como larva nos meus pés. Abrem-se caminhos tortuosos, noites; mil e uma. A fornalha do dia decepou a calma. Há abundância de desespero, de ventos tolos emancipando os cabelos. Difícil os minutos entrecortados, os que antecedem a calmaria de amanhã. Um sussurro ao longe berra pro vizinho que o silêncio chegou. É hora de não-sei. Deitar? Eu não me deito. Eu me acendo em soluços, e tremo perante o confronto dessa treva caindo no abismo do fim do dia, até que amanhã, amanhã a noite venha de novo buscar o conforto doméstico do quase escuro, televisão ligada, antes a vitrola, os ritos dentro de casa que vão mudando. A família que se reúne todas as noites, antes do descalabro. É quando tudo emudece, até mesmo o som corre a desaparecer a algazarra de então. Difícil demais, custoso demais fazer a casa aquietar-se, o sono vir buscar as crianças, os velhos, e os moços. Eu fico aqui, objeto noturno, satélite que também vem apanhar seu vintém de luz. É a parte que me cabe neste pesadelo; eu tremo as mãos, antes do sonho bom. É tudo o que eu posso fazer por vocês. Descrever esse fim de noite, que me cheira a morte, benedictus morte; antes que eu me recomponha do meu grito de soltura. Antes que eu volte com o grilhão da rotina. Agora permanece a roda liberta do meu pensamento nu. Tudo desacontece. Sim, quase como uma morte. Eu me transformo. Eu me solidifico junto com a noite, ganho maestria de desespero; ignoro a sapiência. Dubiedade de encantos. Tudo pode ruir se o ato não se fecha. Basta uma voz mais duvidosa no meio do meu caminho; uma cortina ventando incerta; olhar despreparado de toda mãe para a morte do rebento, que se despede porque virou essa sentinela do céu; basta um entreluzir de janelas que se olham, para que o líquido da noite vá escorrer em outro lugar destroçando o meu exército de sonhos inteiro. Destroça o meu reino de virtuosidades. Sombras justapostas, milimetricamente adestradas para estarem lá, diante dos meus olhos, descrevendo uma sensação. Mas se por algum sortilégio este encanto é rompido... nem sei bem se é isso o que meus nervos pedem. Ele foi rompido agora. Não posso trazê-lo pra vocês. É sempre essa a hora em que as mãos repousam sobre o teclado, a esfinge do pensamento olha o pensamento contido, todo imóvel antes de se ter. E parece que foi sonho. A imensidão desses encontros. É como se me trouxessem um Nazareno; ouro, incenso, mirra. A lisonja de olhar pro mundo antes de ser mundo, a noite antes da noite, antecipando Deus. É como se eu pudesse perceber os deuses de um dia se despregando dos céus, para virem os deuses do outro. O que eu posso contra esse destino que se agita sobre mim? O meu véu é brando, brando demais, frágil demais o meu sim. Até que eu descanse o meu sono calmo, todas as horas do mundo mergulharam aqui dentro, parindo o dia. Só me resta viver.



Terça-feira, Setembro 23, 2003


"Tem uma borboleta rumando para o infinito..."

Eu e a Borboleta


NOTA DE RODAPÉ

(num pé de topo)

Tenho recebido alguns e-mails, desde que voltei, que são uma prova da fecundidade da vida e do sentimento. Prova de que a vida vale por si só, e que as relações travadas entre as pessoas, também.

Eu hoje sentei em frente a esse teclado, e escrevi a coisa que considerei mais triste da minha vida, mais escabrosa, mais desorientada. Deixei lá no meu blog, e fiz questão de não ler mais. Pode não parecer, mas eu me livrei de um tormento. Eu me senti leve como uma borboleta. Eu enxerguei através de mim, como se eu fosse somente um pedaço de moléculas e átomos bipartidos no infinito; sem nome, sem identidade. Sem nem mesmo forma humana.

Por um instante, eu me senti assombrada por estar acreditando de novo em Deus. Não que eu houvesse deixado de acreditar. Mas Ele veio falar até mim, sob pequenas alegorias; como aliás Ele gosta muito de fazer.

Deus... O imagino como um grande contador de histórias! Embora eu saiba que Deus nem pensa. Deus é.

Como eu ia dizendo, logo que acabei de escrever o texto mais triste da minha vida (que eu nem sei se de fato é o mais triste), e me vi desesperada pela falta de perspectiva, senti, de súbito, o que ontem chamaria esperança. Hoje, chamei instinto. Alguém veio me recontar, através de e-mails relidos, cartas buscadas no baú que eu não tenho, lembranças despropositadas; alguém venho me contar que há fecundidade na palavra vida e na palavra sentimento. E que eu estou viva, ora!

"Sinto q minha vida vai mudar, sinto que começo a entrar de novo na vida. Como se eu percebesse que tem alguém zelando por mim lá em cima, e que tenho objetivos específicos nesse mundo, que não estou jogada a esmo. Eu tenho um norte, uma rota. A bússola está chegando. Sinto que amanhã tudo isso pode virar fábula. Lenda urbana. Sinto que eu preciso acreditar de novo na vida para que ela acredite em mim. Vale a pena. Acreditar nesse ser humano que às vezes penso tão decadente. Sempre tão traiçoeiro. Belo. Do ápice ao ínfimo. Eu nunca o explico".

O que não se confessa num icq?

Desde que me mudei de apartamento, tenho estado mais reclusa, principalmente nesse grupo. Mais reticente com os da vida real também. A sorte é que na Internet, não temos rosto, embora eu imagine como cada um seja por dentro. E também por fora. Alguns sabem o meu rosto porque minha necessidade de expressão fez com que eu o expusesse numa coisa que o século XXI inventou, chamada blog, e que visa não só diminuir a solidão provocada pelo excesso da companhia, bem como ampliar as possibilidades do diário de papel. O diário de papel só tem intimidade. Como se isso fosse pouca coisa! Só que blog tem leitor. Nem que seja você mesmo. Ali na Matrix.

Por meio dele eu descobri pessoas fascinantes. Que eu ainda não conheci pessoalmente. Minha mãe fez questão de me apresentar a um outro mundo igualmente fascinante chamado Desassossego.

Permaneci Desassossegada do mesmo jeito, só que muito mais viva. Mais verdadeira. Mais. Expressiva. Eu mesma. Só que mais eu.

"Tem uma borboleta rumando para o infinito... (Aquilo é minha alma rumando para a vida)".

Fizeram o favor de escrever isso justo quando eu tive olhos de ver a borboleta. Num desses blogs eu vi a borboleta. Eu voei com ela. O acaso me mostrou a frase mais bela. Voei dentro das palavras daquela garota que eu nem conheço. Mas quando eu li a frase, ou melhor, quando eu vi a borboleta, foi como se eu a trouxesse aqui em casa, servisse um chá. Para a borboleta. E para a dona dela. Foi como se por horas e horas eu mostrasse a elas a minha coleção de pedras.

Pois é, eu tenho uma coleção de pedras. Ou melhor, tive. Só restaram duas. Isso há de ter um significado especial. Desde que eu voltei, tudo tem um significado especial. Que eu não sei bem dizer qual é.

Eis que recebo e-mails:

"Oi Beta! hoje passeava no 'Bosque do Portugues', um lugar aqui em Curitiba onde pelo caminho tem trechos de poesia de autores portugueses... li uma poesia muito legal e me lembrei de você. entao estou mandando aqui...Olha só: O amor é uma companhia. Já não sei andar só pelo caminho, porque já não posso andar só. Legal, não? Fique bem, tá? a gente gosta muito de te ver por aqui...As vezes a gente entra nuns becos... mas a gente vai saindo...".

Sinto-me de tal forma tocada por aquelas palavras, por aquele alguém cuja intimidade jamais se fez consolidar, porque o mundo é muito grande e as pessoas dentro dele têm pressa, que quase escrevo sobre isso no meu blog. Mas... e o medo da exposição? O medo de expor alguém. Eu chego a postar o email, e o meu comentário junto:

"É por saber que um trecho de poema, um trecho só, é capaz de fazer um alguém lembrar-se do outro, mesmo distante, reconhecidamente distante; que eu enfrento os becos e os bosques em que me perco, para me achar. É por isso que eu acredito ainda numa coisa chamada Homo Sappiens sappiens, e na sua capacidade de amar".

Eu escrevo, eu posto, mas eu depois desisto, com medo da exposição. Aviso à dona do e-mail, que me responde assim:

"que nada, pode publicar e pode até por meu nome, se vc gostou... numa boa... eu gostei de ter passado pra vc e é bom essa coisa da interação entre as pessoas... essa soma é que eleva a qualidade do produto final que é a vida em si e a razao de existirmos de qquer forma... sabe que eu tenho uma filha que tem 20 anos? e isso é quase a sua idade, não? e ela é uma criatura que eu amo muito... como seu sorriso é importante pra mim... independente de como foi o dia, eu chego em casa e ela grita de lá: "mae? oi mãe!" que coisa boa ouvir isso :o)) entao, se vc permite, é claro, quero contribuir um momentinho pra seu sorriso iluminar...".

Ainda me brinda com a explicação de mim: "tem uma poetisa muito presente dentro de vc...acho, as vezes, q vc é a propria poesia q de um desejo se transformou em gente... talvez seja por isso q em alguns momentos seja tao dificil ser apenas uma pessoa...".

Ser uma pessoa. Uma pessoa só. E sem saber, ela faz poesia da minha vida, me explica, e me tira do abismo em que eu me perco, para me encontrar.

É por essas e outras que eu volto achando que tudo tem um significado especial, mesmo quando não tem. Ou, se tem, não se revela assim tão facilmente, porque é tão simples, tão raro, tão sempre, que a gente nem tem tempo pra ver.



(Em 23 de Setembro de 2003 - E-mail enviado ao Desassossego - Lista voltada para a discussão do distúrbio bipolar e psicose maníaco-depressiva).



Domingo, Setembro 21, 2003




O domingo se descarrega em nuvens que não são algodão; é o fim de um dia.

Há chumbo maciço no branco que virou cinza. Mais ou menos como dentro do peito.

Todo domingo nasce branco e explode cinza, ao final de si mesmo. Cada domingo, um abandono mais caseiro, final de tarde, cesta e sereno.

Caminhos descalços no chão frio.

Domingo é irremediável saudade. Abandono dentro do lar.

E se tem criança, melhor ainda! Porque não tem somente cara de família. Domingo tem cara de ontem. Tem cara de chumbos de algodão. Cara de nuvem em fim de linha.

Meu domingo é solitário como o artista.




Sábado, Setembro 20, 2003


Elegia a uma saudade



A mesma medida. Exata e única do teu verbo. As eloqüências supostas no vestido. E toda a insensatez para nos proteger.

Eu te perdi antes de eu te ter. E isso foi há tanto tempo que eu me entreguei à fantasia de achar que o querer, que o querer tem gente, que o querer tem nome, que o querer tem o mesmo fôlego de respirar.

Querer é uma coisa bruta, incendiando plantações da alma. Incendiando. As transformações da alma. A língua é a peçonha contendo o veneno. O meu medo confabula com a mente a força com a qual eu me destruo no teu verbo.

Lembro-me dele, do meu amigo honorário, homem honorário, homem de teatro, homem de marcos; e de marqueses. O nome dele. A face despossuída nos arredores da cara, dizendo-me: te acaricio a pele neutra dos cabelos, enquanto te lambo a virilha. Atingiu-se, então, um marco.

Quebrantou-se a inocência. Eu aprendi que nem a ingenuidade é desprovida da ardência. Nem ele seria capaz de me conduzir totalmente neutra àquele início de palco.

Foi o início da minha intimidade. Aprendi a me reconhecer na voz que eu emitia para a platéia vazia. O teatro era eu no espelho, a terapia, o reconhecimento metafísico de mim.

'Isto vai depender do diretor do teatro, da distância entre o procênio e a barra de iluminação, e dos ajustes para cada situação, a fim de...'.

Falava-se da técnica. Que emoção se continha quando eu via aqueles olhos ardidos de poeta? E a música? Eu conheço de há séculos. Eu aprendi dança. Eu aprendi que a minha falta técnica não me faria infeliz. Eu aprendi que um amigo se faz com silêncio. O não dito dura muito mais que as reverberações da voz. E todos sabem. Todos entendem. O mundo nos compactua.

Que falta! Aqueles olhos amarelos. A voz. Que é de um desses abençoados por Dionísio. Olhos de Dionísio. Que só alguns têm. Olhos de quem tem culpa, olhos virtuosos, olhos em chama. Olhos que chamam.

Eu o conheci lá longe. Ainda era pessoa correta naquele tempo. Era coisa construída, alicerce na beira de um precipício. Eu tinha nome, endereço, filiação, identidade. Eu tinha convicção espiritual.

Tudo me foi arrancado. Eu lembro que dançava com tanta liberdade! Eu não me importava com a falta de talento. Nós ensaiávamos porque ele acreditava em nós. Só ele o profissional. Ele, a técnica. A sedimentação da incoerência.

Havia e há tanto afeto. Eu quereria dizer a ele tudo o que me aconteceu até aqui. O nada que se entranhou sob os meus dias. A minha capacidade de desdizer alegorias. Quereria dizer que Lavoura Arcaica me enfeitiçou. E que o tenho como o André do meu livro. Mas que eu não sou Ana.

Faço brilhantes planos para o futuro. Mas não lamento o passado. Lamento o abandono, a ilha entre nossos passos que sempre estiveram juntos.

Há a partida, mas tudo pressupõe uma volta. Porque é cíclico o ciclo dos meus dias. Hoje o sangue escorre. Por feminilidade. Amanhã se ovulam os dias...

Quem sabe não renasceremos sob as máscaras de arlequim?




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